tudo mudou depois que comecei a cuidar das plantas da minha avó
Nunca dei muita bola pra jardinagem antes dos 30. Na verdade, sempre achei coisa de velho. Mas olha, nunca subestime o quanto de velho tem dentro de alguém jovem quando bate aquela dor crônica, viu?
Eu M(33) de Belo Horizonte, fui diagnosticada com fibromialgia há uns anos. Aquelas dores que ninguém enxerga, que te fazem implorar por um café às 10 da manhã, que esmagam o juízo e as costas, mas o povo diz que é “só cansaço”. Tentei tudo: medicamentos, fisioterapia, meditação, até dieta maluca na esperança de achar o “anti-inflamatório natural milagroso”. Nada resolvia esse aperto meio invisível que parecia me asfixiar.
A virada veio de onde menos esperava: jardinzinho da minha avó (84 anos e teimosa que só ela), lá no fundinho do quintal, do lado daquele tanque de cimento onde antes lavava roupa na mão. Fui ajudar, só pra não escutar sermão de "filha, levanta dessa cama, o sol faz bem pra saúde, menina". Só que, arrumando uma terra aqui e outra ali, mexendo na samambaia gigantesca que há décadas sobrevive a qualquer inverno mineiro, as coisas começaram a acalmar. Tipo... minha cabeça parava mais. As dores ainda estavam lá mas ficava algum tempo sem pensar nelas. Ali, tirando folha seca, plantando mudinha de boldo, aquele tormento engrendava um sossego.
Tem coisa engraçada nesse negócio de mexer com planta. O stress e aquela ansiedade de esperar exame sair, o medo constante de a dor doer mais no dia seguinte – tudo ficava suspenso numa bolha quando eu, minha avó e umas mudas de manjericão estavam debaixo do sol. Ela, contando histórias de como "plantava até mandioca atrás da igreja pros padres ficarem felizes" e eu, esquecida meio segundo de quanto já chorei com essa doença maluca.
E não tô romantizando dor, não. A fibromialgia ainda ferra meus planos de qualquer coisa. Só que depois da rotina Verde da Dona Lúcia (minha avó power ranger), passei a sentir que, pelo menos algumas horas na semana, o corpo me devolvia uma trégua. Sorte a minha ter a avó mais vibes da galáxia: era daquelas que, antes de eu ir fazer o famigerado exame de sangue, vinha me desejar "boa prova", me dando cheiro de lavanda atrás da orelha, explicando que "cheiro bom afasta nervoso". Sei que parece místico demais, mas vocês nunca repararam que avó sempre acha uma solução? Fosse pras dores ou pra passar naquelas provas da faculdade que jurei que não ia dar conta.
Por falar em exame impossível: fiz o tal ENEM de novo pra tentar mudar de profissão por causa da doença, achei que ia dar ruim (não conseguiria estudar muito, cansaço, dor, etc). Adivinha? Passei raspando, mas passei! Única diferença foi a avó me convencendo a estudar no jardim, com barulho dos passarinhos, entre uma colher de terra e outra. Se existe ritual de sorte em saúde e estudo, ela inventou todos.
Tenho a sensação de que quem nunca dependeu (e foi salva) por um avô ou avó, nunca vai entender metade do que significa resiliência. E esse quintalzinho com meia dúzia de vasos virou quase minha segunda terapia (e muito mais barata).
Moral? Aprender a cuidar do que tá vivo perto da gente – planta, bicho, gente, saudade – é mais tratamento que remédio caro. E avós... avós são mesmo o melhor remédio, aceitem.
Quem mais já se pegou assim, com as mãos sujas de terra e coração um pouquinho mais leve?
comentários (70)
essa avó é tipo maga, né? jardinar e passar de ano com perfume de lavanda é quase magia mesmo
E se a Dona Lúcia aceitasse um ajudante charmoso no jardim? Tô disponível!
Jardim virou ginásio terapêutico, né? Malhado no manjericão agora!
Quem diria que um vaso podia guardar tanta sabedoria e silêncio?
Eu sou do tipo que mata até cacto mas ler isso deu vontade de tentar essa tal jardinagem... talvez eu sobreviva a uma planta!
Mas será que plantar salva mesmo ou é só placebo?
Que lindo ver essa relação de cuidado entre vocês, meio que uma fortaleza contra a fibromialgia e o mundo. Queria ter uma avó assim por perto, devia ser proteção pura!
quase que eu desisto de tudo, mas vdd, o jardim ajudou só um pouco...