fui ao ginásio para lidar com o burnout e acabei viciado em ter sempre “um propósito”
Já nem sei explicar direito quando percebi que o cansaço já era mais psicológico do que só físico. Comecei no ginásio (H/29, Maputo) porque achei honesto: se a cabeça não despeja o stress, ao menos o corpo aguenta. Dito e feito. Tornei-me aquele tipo irritante que fala do pré-treino como se fosse o próprio elixir da juventude… No início, mudou tudo mesmo: uma energia nova, aquela sensação de controle sobre a rotina, de estar, porra… finalmente a fazer “algo por mim”.
Só que não demorou muito até esse autocuidado virar uma prisão. É estranho, porque entrar numa academia cá ainda tem aquele estigma de filme americano: todo mundo a tentar ser “máquina”, a viver a transformação de antes-e-depois, posting story, rep storie, hashtags tipo #grind #nopainnogain e por aí fora. Achei que era boato até começar a dar por mim nesse ciclo. Voltei da aula de spinning ontem a pensar se tinha mesmo cumprido o propósito do dia ou se estava só a investir no “reel show” pro resto do mundo. A diferença é fina mas pesa pra caramba.
Exemplo real: outro dia um amigo passou-se comigo porque recusei sair numa sexta, alegando que não podia perder o treino de peito. Nem era p’la paixão à malhação… era puro medo da auto-cobrança. Tipo, falhar uma série? Catástrofe. Domingo off? Ai, culpa total. Tudo começa com aquele incentivo “entra pelo teu bem-estar”, mas em pouco tempo já estamos a competir na moral de quem tá «a correr atrás do propósito». A relação saudável vira um jogo sujo contigo mesmo – medir quem sofre mais para fazer o que é “preciso”.
Vejo TikTok e Instagram a transformarem o ginásio cá de Maputo numa espécie de “templo da motivação”, mas honestamente… a malta troca mais é olhares de reprovação do que incentivo. Se não segue dieta, és mole. Se acabas o treino 15 minutos mais cedo, já sentes meio fracasso. A cultura de ginásio que vende saúde e autoestima por vezes só distribui obrigações novas: o shape tem que ser challenge semanal, o cardio tem de ser intervalado, o estilo relaxado é coisa de velho gordo (como já ouvi, valeu galera do peito e costas do piso 2, rs). Tive microlesões ridículas porque alguém no fundo berrava: “vai! mais uma! Dor é fraqueza saindo do corpo!” — e lá ia eu, a ignorar a coxa a arder, porque fracasso não é opção para quem… tem propósito.
A parte que ninguém diz: isso cola perfeitamente com o que se espera da vida pós-pandemia. Objectivo, produtividade, controle do corpo, tudo preso num ciclo: ou superas, ou tás a desperdiçar o tempo, amigo. Ninguém admite que estamos quase todos exaustos. Trabalhar, treinar, aprender, amar, investir, aparecer: tu só é "alguém a sério" se mete propósito em tudo — e isso esmaga.
Burnout pra mim não apareceu pelo trabalho só, apareceu nessa soma falsa de sempre querer ser “o que não relaxa”, “o que tem projeto para tudo, até para o descanso”. O ginásio que devia ser escape e saúde virou parte do problema. Cinco meses atrás tava tão obcecado em ser exemplo que por pouco não desmaiei num treino HIIT. Médico disse: stress, overload físico, ansiedade. No fundo tava em burnout até dos hobbies! Queres ironia maior?
Comecei a reparar que não sou o único: conheço pelo menos duas pessoas que já pediram baixa no emprego por estafar psicológico e uma das primeiras recomendações dos médicos foi… exercício físico para aliviar. Só que, sem noção, às vezes aumentas ainda mais a espiral da produtividade doente. Tu sais do escritório e voltas a competir na sala de musculação!
Hoje ainda vou ao ginásio, sim, admito. Mas falta começar a ir pelo prazer e não por esse peso do “sentido”. No dia em que me apetecer mandar o treino ao ar e aproveitar um sunset com alguém, talvez possa dizer que o burnout ficou para trás. Até lá, continuo nessa de tentar não virar refém do propósito e lembrar que nem tudo tem que ser missão de vida. Ninguém aguenta — e quem disser o contrário só não rachou ainda.
P.S.: alguém aí já conseguiu quebrar esse ciclo? Mesmo? Ou todos faziam parte do exército do propósito e um dia saltaram fora?
comentários (83)
Pqp, essa pressão toda virou um pesadelo mesmo. Quase desmaiar num treino? Sinistro!
pqp, já passei por isso tbm e é sinistro como a gente se aperta numa rotina que deveria ajudar e vira tortura. uma vez faltava um treino e eu só pensava "e a culpa?" no fim, nem era pra saúde, era pra manter uma imagem que nem a maioria nem liga no final das contas. espero que consiga dar um passo atrás sem se sentir fracasso, é brabo.
Treinar com propósito, mas sem virar escravo disso, é o equilíbrio difícil, né?
Só quem já levou suspensão por insistir em mais uma repetição entende...
Treinar virou milhão de paus? Pqp mds, só faltou ter app que avisa "falhou treino, perdeu vida". Isso é quase estilo videogame hardcore, só q sem boss final, só boss na cabeça. Maluco, dá um quit antes do game over lol.
Eh, só mais um exemplo da pressão de parecer sempre perfeito. Cada um sabe da sua batalha, e o ginásio não deve virar campo de guerra psicológica!
Essa loucura toda do "propósito" vira prisão mesmo, parece que a vida virou competição 24/7 e a gente só quer um respiro.
Pô, e aquela vibe de que se não tiver propósito até pra cochilar tá errado, né? Tipo, quem quer viver igual robô maratonista 24/7? Fora que esse tal 'autoamor' virou pressão social, bomba relógio que a gente mesmo arma. Já me peguei querendo inventar rotina só pra parecer que tô na linha, mas cadê paz? Óbvio, treino é bom, mas e a cabeça? Dá mó meda virar refém dessa "missão fitness eterna" aí, mano.
Mano, essa vibe "tem que ter propósito até na cerveja" tá mais tóxica que aquelas tretas de reality show. Já vi gente mais perdida que GPS sem sinal só pra não perder "o foco". Curioso pra saber quem é que começa esse hype todo e pq ninguém para pra respirar. Isso tudo é meio doido, né?