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como sobrevivo em lisboa com 800€/mês (spoiler: muito improviso e pouca paz)

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Ninguém me preparou pra isto: sobrevivo em Lisboa com 800€ mensais e parece que cada vez que respiro alguém inventa uma taxa nova pra me cobrar. Vou tentar explicar como é malabarismo puro e, às vezes, parece mesmo que ando a viver num sketch do Herman José.

Comecemos pelo início: arrendei um quarto minúsculo (e com "vista para o telhado") numa zona meia improvável, tipo ali entre Olaias e Beato. Pago 360€ e ainda agradeço a todos os santos porque “há quem pague 700€ por um cubículo pior”. Já comi muito atum ao jantar à conta desse raciocínio. Água, luz, internet — mais 90-100€ em média, e rezo cada mês pra EDP não surtar e meter uma estimativa aleatória tipo noutros colegas meus.

Transporte? Cartão Navegante básico, 40€. Nem penso em Uber… e espero sempre, religiosamente, que não haja greve nos comboios (mas se houvesse greve dos autocarros dos turistas, eu agradecia).

Depois: tudo é caro. Mercado de bairro só se for quinta quase a fechar porque aí vendem fruta feia pela metade — já faço parte daquela fauna que saca tomates marrons, mexe e, se não estiver podre, leva.

Pior é quando se discute habitação nos noticiários como se fosse uma tendência do Pinterest. “Jovens no co-living: experiência formativa”. Não, Rita, não tenho qualquer burning desire de lavar loiça alheia!

Mas o melhor vem no trabalho: o meu colega — chamemos-lhe Paulo — faz metade do trabalho (e nem é bem metade… é mais montar puzzles de Excel e ficar a discutir quanto vale o Bitcoin a seguir ao almoço) e, sem exagero nenhum, ganha literalmente o dobro. O desgaste de ser o “polivalente” é que nunca compensa. Já pensei mil vezes pedir ajuste, mas só muda o discurso do chefe: “a situação do mercado é incerta”, “mantemos todos por paixão”, blá blá, só falam assim quando é salário dos outros.

E ainda sobram 200€? Duvidei. Mais supermercado, uns eventuais cafés (não sou extraterrestre), é milagre se chego a meio do mês sem mexer na reserva que devia ir pra alguma poupança. Saber que metade das casas à volta continuam a subir no preço e a descer na dignidade (já vi uma sala-cozinha-quarto-balneário numa cave que chamavam "estúdio principal") dá vontade de fugir pro campo, mas depois lembro do metro de hora em hora e fico…

A janela de lazer, então, é outro exercício de criatividade: cancelei Netflix, HBO, Disney e o raio todo aquele streaming. Voltei à pirataria (shhh). Reparei que toda a malta à volta faz o mesmo mas nunca diz alto. Comprava DVDs aos sábados na Feira da Ladra? Sim, tô nessa outra vez. Downloads e "ver quem tem o ficheiro less sketchy" é skill essencial agora. Ver dois filmes sem perder horas num túnel russo de legendas brasileiras é o novo privilege.

E agora a vitória: finalmente passei no exame de certificação que queria há dois anos (não vou nomear porque se sair daqui pergunta docente a ordem dos tópicos). Estudei nos comboios, estudei enquanto cozinhava, estudei nos áudios dos profs que arranjei online. Menti várias vezes que ia ao "ginásio tarde" só para conseguir espaço no quarto e flashcards sem ouvir roommate em videocall a vender pirâmides. No final, sensação de sobrevivência — tipo atletismo de bairro, mas versão adulta.

Viver assim? Não é “glam”, é tipo espremer limão encima de ferida. Mas é possível. Às vezes parece até que é status: sentar num miradouro com a sagres de 85 cêntimos, ver a cidade linda e pensar 'bom, podia ser pior, podia estar em Santarém' (brincadeira — com amor para Santarém). A malta resiste e adapta-se. E mesmo que a renda a subir seja a nova maratona olímpica… nunca deixo de procurar as falhas no sistema pra não ser só mais um a ser comido aquela comida fria do fim do mês.

Enfim, se alguém mais tiver hacks de sobrevivência ou só me quiser dizer que também vê pirataria com guilt zero, digam. Partilhem lifehacks. Se Lisboa tivesse reward points por cada esquiva ao sistema, já era elite gold.

(it's rough out there, mas alguém tem que fazer render esta piada cósmica chamada vida de jovem lisboeta)


comentários (55)

Marta_Feminista_Lx

Essa cena do Paulo que ganha o dobro só por fazer menos é o típico sinal das estruturas laborales falidas. Enquanto a mulherada e pessoal que rala não vê metade do reconhecimento, eles ficam a criticar o Bitcoin e ainda têm tempo pra mamar. E cá estamos, a empurrar com a barriga pq esse sistema é dos homens. Não é só salário, é visibilidade e justiça no trabalho.

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kiko_fds123

quem diria que a saga do pagar luz e comida ia ser mais épica que qualquer série?! vou ali chorar e já volto

Duda_Maluco

isso é quase prisão domiciliar mas sem os direitos

Léo_Malandro

Passar 2 anos nesse corre e ainda conquistar a certificação? Isso é foco e testaço, mano!

RuiDesanimado84

800€ em Lisboa? Pah, até dá vontade de desistir de tudo, sério... onde é que a gente vai parar assim?

Joaquim_Bsb

Olha, a loucura é real mesmo. Cada taxa nova parece castigo, e o tal coworking não passa de coisa pra deixar a gente mais preso. Aí acaba a liberdade. Quem aguenta?

MartaLis_86

Olha, sinceramente, acho que aceitar metade do que ganha pq "a situação tá incerta" é só dar murro em ponta de faca. O Paulo tá pagando duas vezes menos esse improviso aí? Nao cola!

Meme
Tião_Pistola

isso do colega que só monta puzzles e ganha o dobro é um roubo oficial né? absurdo mesmo!

TiagoD_Ascenção

Sabes que o sistema tá todo armado pra espremer quem tenta só sobreviver, né? Enquanto uns discutem co-living como moda, o verdadeiro jogo é outro: cada taxa nova, cada ‘estimativa’ da EDP, tudo pra quê? Controlar o bolso e a cabeça da gente, ficando tudo no escurinho. E essa do colega ganhar o dobro só por não fazer metade do teu trabalho? É o velho esquema: quem luta, fica pra trás; quem sabe jogar, leva tudo. E tu ainda passas no exame assim, escondendo os estudos como se fosse “ginásio tarde”? Brincadeira ou não, é um sinal forte. Mas cuidado: tenta não virar parte da engrenagem sem perceber, porque na próxima dança, quem paga o pato é você. Essa Lisboa é um tabuleiro meio torto, parceiro.

Kiko_Brisa23

mano, é tipo sobrevivência nivel hard, né? vida loka em lisboa.

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