páscoa da aldeia, animais salvos e aquela infância que nunca mais volta
Do nada dei por mim a pensar como a Páscoa na aldeia parecia ser sempre uma aventura que nem dava muito para explicar a quem nunca viveu. Lembro de acordar com aquele cheiro a fumo das lareiras, ouvir ao fundo a minha avó a ralhar com os tios porque se atrasavam para ir buscar os folar à padaria da D. Ana. Aquilo era uma festa sem televisão, sem wireless, só com caminhadas pela terra batida e malta a meter-se toda em casa uns dos outros.
Este ano consegui ir lá, anos depois. A estrada para a aldeia continua péssima — esburacada, curvas de doidos — mas vale cada vacilar do carro para chegar. Encontrei os meus primos todos espalhados, alguns já não aguentam a rede da Vodafone nem cinco minutos, outros vivem agora em cidades e até já perderam o sotaque. Fui a única tonta que ainda quis fazer caça aos ovos no quintal, mas pronto, há que manter algum património cultural vivo nem que seja a brincar, não?
O mais giro nem foi rever família, sinceramente. Foi encontrar um cão, o Bolota, magrinho como tudo, junto ao forno da aldeia, já quase a ser ignorado. Trago para aqui uma mania (muito citadina) de querer salvar todos os animais mal tratados. Peguei nel' sem perguntar a ninguém, dei água e pedaços do meu pão fatiado (praxes da aldeia: usar sempre o pão velho da semana), e de repente metade das miúdas passaram a seguir-me o resto do almoço, porque "quem cuida dos cães é boa pessoa".
O Bolota acabou no sofá da casa dos avós a dormir, com a barriga cheia, a ver quem ressonava mais alto, ele ou o primo mais velho. A minha avó, que sempre renegou tanto bicho, diz logo a resmungar, mas depois já anda a queixar-se em segredo de como o animal anda triste porque os donos "deixaram-se da vida cá".
Sabe tão bem lembrar que festas da aldeia são sempre meia improvisadas — uma panela de arroz de forno, alguém a tocar acordeão num canto, cafezada gulosa para a meia dúzia que ainda não foi dormir. Sinto que isto é daquelas poucas coisas que o tempo não matou completamente…
A verdade? Dói crescer. Dói sentir saudades do tempo que só havia de pensar em não sujar a roupa e limpar o pó pra avó não ralhar. Agora só olho e penso nos que já cá não estão, na infância que evaporou, e como voltava a dar tudo para me preocupar apenas com caçar ovos ou tirar um cão da rua.
Velhos tempos? Bué. Não sei explicar mais nada, só aquela nostalgia forte quando atravesso o largo da aldeia, cheiro o pão, olho para o Bolota e percebo que, por uns minutos, é como se tudo tivesse parado aí para mim.
Alguém mais sente isto nas aldeias? Ou isto sou só eu já a entrar nesse modo pessoal meio fatalista pós-trinta?
comentários (12)
ihhh, cresciro nos anos 90 e a páscoa na aldeia era sempre opá aventura q doía no coração!
Ficar a cuidar do cão sem avisar a família? Aí já complica, viu. Isso é conversa de cidade que acha que manda!
E essas pessoas que te viram cuidar do Bolota e ficaram só de olhar, sem fazer nada antes? A culpa NÃO é do cão nem só dos donos "que se deixaram da vida". A aldeia toda devia chorar a responsabilidade de deixar um animal maltratado ali à sorte, não só resgatar um "quando apetece". Isso irrita um bocado, sinceramente. Pq as coisas só mudam com ação coletiva, não por um gesto isolado que ainda é apontado com suspeita depois. Pior q isso, a avó a resmungar mas depois ficar a cuidar em segredo. Viva a hipocrisia de certas mentalidades rurais, às vezes dá mais vontade de gritar?
Bolota no sofá? Eu só imagino o primo ressonando mais alto, o cão a tentar competir, tipo batalha épica rs Foi nostálgico só de imaginar essa cena, boa demais!
Nessas histórias da aldeia sempre rola aquela vibe de salvador de animais, né? Mas será que estás a pensar que é tão simples assim, só apanhar o cão e levar pra casa? Tem toda uma dinâmica e responsabilidades por trás que às vezes a gente floreia demais. Nem toda a gente está preparada pra essa "missão heroica", e às vezes o melhor que se pode fazer é tentar envolver a comunidade, não agir sozinha como se fosse rachada. Se não, vira mais confusão e cria mal-estar, mesmo com boas intenções. Só digo isso porque já vi uns episódios parecidos e... nem sempre acaba bem. Mas o Bolota pelo menos foi sortudo, isso sim.
Ah, a aldeia tem mesmo aquele jeito de nos ligar a Deus, à terra e ao que importa... Essas memórias de Páscoa, com a família reunida e o cuidado com o Bolota, são bênçãos que confortam a alma cansada! Que a fé nunca se perca, mesmo longe do altar familiar.