o rap salvou-me do limbo entre ser angolano e ser português
Não sei se mais alguém vai entender isto mas cá vai: H(22), nascido em Luanda, crescido nos subúrbios de Lisboa desde puto, sempre tive a sensação de estar de fora de tudo. Sou aquele tipo de gajo que os tugas dizem “é angolano”, mas quando volto à terra de origem, os meus primos também não me veem como “mesmo de lá”, tás a ver? Sempre a meio caminho, sempre meio à parte de tudo.
Houve uma altura que pensei: não sou daqui nem dali, então vou ser de onde? Sinceramente, batia bué forte quando era miúdo. Lembro-me no básico, algumas crianças gozam do sotaque, outras querem ser tu só pelos memes do “Angola Power” ou o que for, mas ninguém nem faz ideia da merda que é não sentires chão para pôr os pés.
Mas aí entra o rap. Sem puxar cliché, mas foi o hip-hop da lusofonia que me deu casa. Mano, não estou a exagerar: Djodje, Valete, Prodígio, NGA, Calema, Wet Bed Gang, os mano de Moçambique, pessoal de Cabo Verde — senti que toda a minha confusão e vontade de gritar cabia ali. O sotaque deles, as histórias de cotas, da mãe que foi lutar, da família que migrou, de bairro, de sonhos curtos, de ruas, dos iludidos e dos sobreviventes… tudo soava familiar porque era sobre mim. Mas feito canção.
Comecei a escrever uns textos, spit umas barras com amigos, no começo até a gozar mas depois vires dependente. Não ganho vida com isso nem ando a fingir que sou artista — só que pela primeira vez aquela ideia de “casa” fez sentido. Sinto orgulho de não negar nenhum lado, mesmo que o bairro me puxe um e Luanda outro.
E tipo, ouvir hip-hop daqui e de lá fora fez-me perceber o quão únicas são as nossas vozes. A mistura, as gírias, aquele arrastar da pronúncia, as histórias todas num beat que bate fundo. Melhor cena do mundo é ouvir sons com irmãos do bairro, cada um com origens diferentes e todo o mundo a vibrar igual. Nunca mais me senti sozinho, nem estrangeiro — só parte de um tipo de família que não está escrita em nenhum passaporte.
Mano, às vezes acho mesmo que o rap devia ser estudado a par da história da migração, porque salvar mente de periférico é mais importante do que parece. Só queria saber se mais alguém sente o mesmo. Qual rapper lusófono vos salvou ou vos deu chão quando ninguém dava nada por vocês?
comentários (8)
Já vi essa história de não ser nem lá nem cá, e mano, é lixado mesmo. Mas rap é só um som? É cultura, é arma, é refrigério. Só que às vezes a gente finge muito, faz palco demais e esquece que tem muito rapper que vende ideia e na vida real tá longe disso. O que vale é a verdade na rima, senão vira teatro pra gringo. Rap para mim tem que ser sangue na caneta, do gueto que a gente tropeça todo dia, não só rimar bonito e contar vitória que só existe no álbum.
esse lance de nunca ser bem "de nenhum lado" só quem vive sabe o peso, né? rap é tipo o grito da alma que não cabe nem aí nem acolá, só em si mesmo. Foda.
sei q isso do meio-termo é fogo, tipo estar em duas ondas e em nenhuma ao mesmo tempo! mas rap mesmo tem esse poder mágico de juntar a galera e dar voz a quem acha q não tem. quem diria q umas rimas iam curar tanto, né?
Na minha época, rap ainda era coisa de nicho, e era assim que a gente se encontrava na mistura toda. No fundo, é aquele grito mudo que diz "eu existo" mesmo quando ninguém entende. Boa que encontraste teu canto.
Sempre achei sinistro como o rap conecta pedaços soltos da nossa identidade, tipo uma cola. Mas será que a gente não devia criar mais espaços além da música pra esses casos de 'casa ausente'? Curto a ideia, mas esticar o lance pode ajudar geral.
Ó, já basta desse papo de 'não sou de cá nem de lá' que faz a galera se sentir menos, saca? A vida é essa mistura toda, e ficar nessa ladainha de identidade só serve pra complicar mais ainda a cabeça de quem já carrega o mundo nos ombros. Rap salva? Salvou, beleza. Agora, vamos parar de romantizar esse limbo que ninguém escolhe e agir pra mudar o cenário, porque ficar só na música não paga as contas nem traz respeito de verdade.