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ninguém avisa que ser músico é tipo assinar contrato vitalício de frustração

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Ninguém fala sério sobre isto: ser músico cá é quase um ato de teimosia passiva-agressiva. Sou H(28), Porto (original de Viseu), e vou dar nome ao bicho — a indústria só existe porque há malucos como eu que continuam a insistir mesmo sabendo que dinheiro nunca vai cair do céu.

Comecei a tocar guitarra aos 11 porque o meu avô tinha um rádio sempre a passar kizomba e fado, depois morna, depois um pouco de todo o universo africano-português, porque a vizinha do andar de cima tinha morado em Bissau e punha música no máximo o dia todo. Juro que cresci a achar que toda a gente sentia esta obsessão. Percebi cedo que o que falam da influência da música africana nisso tudo não é conversa de teórico: está mesmo no sangue dos ritmos, no sotaque com que se diz uma letra. Fado com semba, semba com pop, morna em tudo, sei lá.

O problema começa quando tu queres mesmo viver disto. Alguém devia fundar a Associação dos Gajos Que Já Rodaram a Mesma Música 15 Vezes No Spotify Para Tentar Pagar o Café. Porque explicar a qualquer pessoa do meu círculo (nada a ver com "artistas", digo mesmo familiares, amigos, colegas de baliza do futsal) que um milhão de streams é tipo… trezentos euros, é igual tentar convencer que é possível fritar um ovo sem lume. O Spotify, YouTube, o Deezer, tudo: paga moedas. Dizem que democratizou. Pfff. Democratizou a ganhar pouco.

E depois há os "agentes" — lendas das promessas de actuações pagas a metade e a famosa comissão “pouca mas certa”. Em Portugal ninguém quer pagar para ver bandas pequenas, só coros tributo e DJs que tocam aquela do TikTok. Os bares até querem música mas só se tu levares público contigo ou aceitares consumições como parte do cachê. Pior, conheço pessoalmente músicos que, depois de gravar música original, ainda pagam eles próprios para lançar em plataformas só para não serem esquecidos. E no fim, toca a dividir as migalhas com as editoras, mesmo quando és "independente".

Às vezes vejo o pessoal a dizer “se não dá dinheiro, muda de vida”. Simples ser adulto na internet, né? Mas eu nunca quis ser engenheiro. Se amanhã largasse tudo, metade do meu coração desaparecia. Ao vivo, quando toco, nem me lembro do stress. Mas o resto do mês é recalcular contas e pedir favores. Férias, só se for tour não paga.

Por isso quando alguém partilhar uma música local que curte, por favor, façam três coisas: ponham no repeat mesmo se tiver que baixar o volume pra não enjoar quem está perto, paguem aquele bilhete pro bar quase vazio e lembrem-se que cada segundo tocado é mais resistência do que talento. Somos a parte do país que vibra quando o resto só reclama. Talvez um dia inverter a lógica.


comentários (42)

Mateus_TL

Já pensei se essa tal resistência não é, no fim, o próprio som que a gente produz? Tipo: dor que vira acorde?

Léo_Gb_CV

pq é q ninguém fala dos rolês na cena, tipo os músicos trocando fita e fazendo a cena crescer na base da amizade? sem grana, mas com moral. é um hustle eterno, mano.

Francisco_Nau

Fdx, isto mete-me uma raiva bacana! Um lutador que só recebe migalhas e ainda tem de convencer o pessoal a escutar? O mínimo é respeitar o suor do artista, apoiar a cena local, ou isto nunca muda. Não é só música, é dignidade.

ZéDoBarulho_PT

Se a música é isso mesmo, um contrato vitalício de frustração, eu vou já tratar de fazer outra coisa, porque aqui fico não, não dá pra viver assim. E outra, misturar fado com semba? Muito doido, só se for pra confundir mesmo!

Pedro_Sul

Olha, ser músico nunca foi para quem quer vida fácil, né? Mas às vezes parece que o mercado esquece que música é arte, não só negócio. A gente toca pra sobreviver, mas às vezes parece que a sobrevivência é que esgota a alma.

Tiago_Lx_89

onde é que eu assino pra ser maluco assim também? isso é quase arte com dor de cabeça

NickeZ_Al

15 streams e já tô pensando em desistir kkk parece que ñ é pra qualquer um

LiaRevolta_Lx

Vejo que meteste o dedo na ferida, e bem! Sem esse misto de tradição, resistência e paixão, a cultura acaba mesmo por empobrecer. A cena toda é gamada contra quem tenta fazer algo com alma, e isso devia incomodar mais gente. É isso que devia ser revolução!

MaluSantarém

Sério que um milhão de streams é só 300 paus? Achei que dava pra pagar umas férias no Algarve. Essa cena da música hoje em dia é quase profissão de risco... vai lá, Zé, toca só pra uns gatos pingados e aguenta.

PédeChulé_Lisboa

ainda bem q o fado do spotify nao paga as contas pq aí era q n dava msm... 😂

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