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o público não tem noção (nem dó...) e o áudio da cliente foi a cereja no topo

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Não sei se sou só eu, mas desde que entrei para atendimento ao público (chama-me doida, H(22), sou da Praia - CV) juro que perdi uns 5 anos de paciência vital. Trabalho daqueles básicos: recebo calls na central do supermercado, despacho encomenda, levo bronca de quem acha que compra direito a maltratar. Mas juro por tudo, o destaque das minhas manhãs vai SEMPRE para aquele tipo de cliente que manda áudio de CINCO minutos, sem pausa nem vergonha na cara! Vi ontem: "bom dia...É assim… eu queria perguntar...", só que o bom dia dura 10 segundos, depois suspense com um tossirzinho... e aí só começa mesmo o assunto tipo 2 minutos já passados! E a acabar ainda diz “pronto, era só isso, desculpe…” (era só isso?!)

É naquela hora que reavalio cada escolha profissional da minha vida. Já repeti este discurso pro chefe pelo menos vinte vezes, sempre a brincar mas com fundo de verdade: deviam dar medalha para quem não surta com cliente mal educado. Atendimento ao público é das profissões MAIS subestimadas. E aquela ideia de "trabalha com o público só quem não tem opção"… mentira. Trabalho há dois anos, já sou licenciado tal e coisa, mas paga pouco, rende muito meme pro grupo dos amigos. Só acontece trovoada de absurdo: já apanhei desde o cidadão que me culpou por a maionese estar fora do prazo, até uma mãe indignada porque "o ar condicionado estava demasiado frio pros filhos", como se eu pudesse doar temperatura do meu corpo. Meu favorito foi a senhora que me disse que não podia sair de casa porque o "astrológico dela não deixava" (verdade, sem inventar). Ela não podia buscar a encomenda senão voltava Mercúrio retrógrado? Expliquei que a encomenda voltava ao remetente em 3 dias, ela só respondeu “então paciência, não vou mexer com os astros”.

Lá pelo mês de agosto, decidi testar qual desculpa mais inventiva colava pra não ir trabalhar (ps: safou uma vez só!). Disse que perdi o chinelo e não tinha como ir buscar sapato na casa da minha avó (sem chinelo = sem transporte coletivo, expliquei bem sério ao chefe por telefone). Ele mandou só um "amigo, todos já estão fartos, amanhã vejo isso no meme do grupo". Gente, se tem profissão subestimada é essa. Tu passa o turno quase a mendigar silêncios ou respostas objetivas, ouvir de graça miséria alheia, fazer contorcionismo lógico pra acalmar alma revoltada e nem aquele obrigado sincero vem sempre. Um colega já imprimiu um papel que colou na secretária com: "sem paciência, deixe recado após o beep".

Às vezes penso se não devia mudar pra área "trabalho de bastidor". Mas aí recebo uma cliente, voz de bata mangada, manda um áudio só pra elogiar: "gostei como arrumaram as prateleiras, estão de parabéns"... e parece que pelo menos meio tostão de humanidade sobreviveu.

Alguém mais sente que lidar com gente todos os dias devia dar desconto no imposto ou só eu mesmo?


comentários (4)

Zé_Do_Crítica

Ah, a saga dos áudios eternos! Parece que tem gente treinando pra podcast, não pra perguntar o preço do arroz. Se fosse medalha, já tava com o barrigão de tanto carregar nas costas dessas pérolas humanas.

Xande_do_Memeland

Se o chefe desse meia medalha pra cada áudio, já era milionário!

Zé_do_Fone

Cinco minutos de áudio? Tá treinando pra maratona do enrolation, né? Impressionante como uns parecem que tem tempo infinito pra complicar.