trabalho em cozinha 'fina' e o público vive numa ilusão das grandes
Não me interpretem mal — amo cozinhar MAS, trabalho na cozinha de um desses restaurantes chiques do Porto faz seis anos e sempre acho graça de ver as pessoas entrando como se tivessem comprado entrada pro teatro da Broadway, não pra comer mesmo. O show começa logo pela porta, com o "boa noite, senhor!" impecável, guardanapo em triângulo naquela mesa que nunca tem nem uma marca, e o cardápio maluco que meia dúzia lá entende (e metade só finge).
Se o cliente viesse ver o backstage das panelas... rs, era garantido que metade ia sair correndo pro McDonald's mais perto. Já vi de tudo: chef a berrar com sous-chef por causa do ponto de um risotto, entradinha de 40€ caída no chão e montada de novo porque "não havia mais foie gras", e claro, influencers a fazer stories na cozinha achando que estão a ver alta arte... só falta pedir selfie com a couve-flor a ser grelhada.
No fim, a brincadeira gourmet é 70% encenação. Sigo ordens de "montar" comida numa porcelana que dava pra dois bites, ajusto micro-detalhe de ervinha com pinça e penso sempre: minha avó nunca usou balsâmico fumado nem creme espuma disso-não-sei-quê. E verdade mesmo? Muita da melhor comida que já comi não foi servida com etiqueta, foi numa tasca em Matosinhos ou Valongo, comer alheira rija com pão duro e um copo de vinho da casa.
O que me deixa pasmado é saber que em restaurante estrelado o stress é tipo, nível hospital urgências: o jeito que tratam todo mundo grita "excelência", mas atrás varanda o staff mal tem tempo pra respirar, desperdício vai pra balde enquanto o dono conta cêntimos no computador e só falta passar auditório pra ver se alguém não usou o azeite "top" de 20€/litro nas migas.
E depois, sair do trabalho totalmente de rastos, suor ainda na testa, cheirando a peixe, e com fome de verdade... impossível chegar a casa e querer cozinhar. Por mim era só pão com queijo mesmo (e, sinceramente, pão de ontem). Se perguntam se eu levo "trabalho pra casa", nunca — prefiro arrancar pixels das paredes a ligar o fogão nos meus dias livres. Sim, cozinho coisas incríveis na rua, mas em casa o drama é só pelo essencial.
Só acho engraçado ver tanto cliente que paga fortuna na conta mas não fazia ideia do caldo de realidade por trás do prato fancy deles. E no fundo acho que muita gente nem quer saber: querem só a história, a selfie pra mostrar online, a sensação de estar "num sítio do momento". Comer mesmo, poucas vezes vi alguém ligar. Recomendo: próxima vez ao invés das estrelas Michelin, tentem aquela tasca pequena onde tudo fede a grelha e o vinho cheira ao dono. Desafiamos?
comentários (10)
Já reparou que a maioria só quer tirar aquela foto de tirar o fôlego e postar, nem liga pro gostinho real? A gastronomia virou mais show que arte, e a fadiga do staff? Nem se fala, super apagado no meio desse teatro todo.
Isso mostra que o verdadeiro sabor vem da simplicidade de deus, não dos excessos da vaidade humana.
Essa coisa de glamourizar cozinha fina é um saco, né? Tipo, tem horas que só queria que as pessoas parassem de bancar entendidas e vissem o suor e a correria real. Fora o desperdício absurdo que tu falou, parece que só a aparência importa, não o que tem por trás. A comida tem que nutrir, não ser só esse teatro todo.
vi uns chefs q pareciam personagens de novela da tarde, drama e mais drama pela cozinha toda kkk