perder 40kg, fazer uma maratona à maluca e descobrir que saúde não é só um número
Destesto balança, só pra começar. H(29), Maputo. O que ninguém me contou sobre perder peso é que tu podes largar metade do teu ser e ainda assim carregar o peso todo na cabeça. Antes de perder quarenta quilos, eu era “o gajo grande”, sempre a fazer piadas auto-depreciativas e a jogar à defesa antes mesmo de alguém me atacar. Sacana do escudo, né? Já ouvi de tudo: “Tinhas uma carinha tão bonita pro teu tamanho”, “agora és tu todo fitness?” ‒ epa, só mudei mesmo o que como e comecei a mexer este corpo que parecia mobiliário urbano.
Quiseram saber tudo: dieta, quantos correm agora atrás de mim, como emagreci, se não tenho medo de engordar outra vez. Ninguém pergunta se fiquei feliz. Spoiler: só fico uns minutos depois da balança, depois volta tudo ao normal. Não fiquei iluminado de repente. A diferença: agora em vez de piadas, ouço palpites e conselhos diários de quem nunca entrou num ginásio sem ser pra tirar selfies.
Fiz a minha primeira maratona num surto de “prova pessoal” que só me fez sentir um idiota por dias. Não, não tinha treinado. Só achava que correr todo dia era igual a aguentar 42 quilómetros: ingenuidade de quem caiu no Instagram fitness. Quem diz que é só disciplina nunca fez metade do caminho com cãibra na alma. Fui arrastando as pernas e o orgulho, vi cotas de 60 a dar baile, ouvi o staff perguntar se precisava de ambulância. Cheguei ao fim, acho. Cruzei a meta, sentei no chão e só chorei um bocado.
A partir daí a pressão ficou ainda mais bizarra. Campeão do grupo do Whats, prémio de “inspiração”, mas nem dormia direito. Começaram uns treinos sem parar, dieta cada vez mais restrita, a correr não sei de quem. A verdade? Cada selfie minha nos stories vinha cheia de palmas e emoji fogo, mas às vezes à noite eu estava era partido e vazio – e a ansiedade de engordar outra vez só cresceu. Antes parecia que a vida dos gordos era chata, mas a de quem emagreceu não é menos solitária. Lidas sempre com uma expectativa; tua, do espelho, dos outros. Tudo competição, até quando não há prémio.
A pressão nos grupos do running ou do ginásio é surreal. Rapaziada de vinte, ultramaratonas, planilhas, cronômetros, suplementação de proteína que custa mais do que um salário mínimo. Eles põem a (suposta) saúde física acima de tudo, mas saúde mental ninguém fala. E cada um ali tem medo do outro pensar que tá preguiçoso, gordo velho a relaxar, etc. Vi adolescentes a treinar que nem gente no exército, já sem joelho e coluna, porque alguém disse nas redes: no pain no gain.
Honestamente? Hoje faço o mínimo e tou a reaprender o que é satisfação própria sem performance pra ninguém. Sigo sem ser magro de essência, até finalmente aceitar que viver de dieta eterna não é jeito de viver. Posso ter perdido quarenta quilos, mas tudo conta se não ganhar paz junto. Ninguém fala disso, né? Pois pronto, falei.
comentários (15)
isso de ser "inspiração" é um peso que mais parece castigo, né? abusado...
Confesso que sempre achei exagero essas pressões do grupo fitness, parece até que viraram religião da saúde perfeita. E essa ideia que quem não pira tá “relaxando” é ridícula, cada um no seu ritmo, né? Cansa essa competição eterna, parece que nunca tá bom pra ninguém.
tu largaste 40kg e ainda assim a cabeça pesa, estranho que a galera só quer saber números e estigma... e essa corrida doida aí, só comigo pra meter essas loucuras na cabeça, e depois ainda tem que aguentar essa pressão dos outros, véi, surreal mesmo.
Caraca, perder 40kg e ainda sentir essa pressão toda? Que loucura, dava jeito que alguém desligasse essa cobrança.
essa corrida na maratona foi tipo: WTF, mas tu chegaste! clap clap
e essa maratona na pressa? só pode dar merda, hehe
Saúde mental é sempre a parte esquecida dessa história toda...
Esses grupos fitness são tipo um culto secreto, né? Todo mundo finge que tá bem, mas tem um fogo baixo queimando por dentro. Quem ousa largar a máscara?