call center aos 40: tudo o que disseram sobre inferno está subestimado
Dava um dedo mindinho pra nunca ter de atender outro telefonema a dizer "Senhor poderia aguardar só um momento em linha?" (spoiler: ninguém aguarda de bom grado). H(40), Lisboa, e parece que programaram a minha crise de meia-idade ao som de toques polifónicos dos anos 2000. Se alguém me dissesse há 20 anos que aos 40 ia estar a disputar headset com o estagiário e googlar como ligar VPN num portátil XP, chamava louco. Pois bem, bem-vindo ao multiverso do call center, onde Zooms são armadilhas e até o ar-condicionado faz bullying (sempre muito frio ou sabota e não liga).
Quando comecei, achei que ia dominar a tecnologia rápido: "isso é só falar ao telefone, meter uns dados e clicar, não deve ser nada do outro mundo". Oh meu amigo, nunca subestimes quantos menus com 98 opções podem caber num único software—e como o botão de 'sair' está sempre escondido num labirinto. O sistema pifa 16x ao dia, basta alguém da contabilidade passar à nossa frente na rede e, pá, crashou! Ninguém à minha volta tem mais de 26, jogo nome-do-disco-de-mp3 pra ver se pescam referências, rio sozinho; falo de Internet discada? Silêncio. Um chama-me boomer, achei que boomer era a minha mãe, honestamente.
Falando de entrevistas, não sei como ainda passo no crivo. Ranking honesto das minhas piores respostas recentes:
- "Defeitos? Eu suporto ouvir gente a gritar, desde que não seja fisicamente."
- "Falo inglês técnico... mais ou menos: restart, support, reboot."
- "Porque quero trabalhar aqui? Alguém tem de pagar as contas."
- "Como lida com stress? Como toda a gente: pizza e pão de queijo."
- "Vejo-me onde daqui a 5 anos? Eu só queria um horário que permitisse pegar meus filhos na escola."
Sim, é triste, mas já estou naquele modo sincero/cansado de tentar moldar personagem pra RG. Na entrevista mais surreal que tive, uma senhora de RH (claramente mal paga) virou e mandou: "Sente-se confortável com cobranças constantes de performance em ambiente dinâmico?". Eu: "A vida já me cobra faz 40 anos, pode vir a meta". Achei que ia rir, ela anotou sem mexer um músculo. Fique à vontade, querida.
E a coisa com a tecnologia é séria: tipo, a malta nova faz tudo num atalho, ctrl+algumacoisa, abrem 70 abas e WhatsApp Web direto. Eu? Descubro que abri cinco janelas do mesmo programa e bati com o mouse no teclado. O estagiário disse-me semana passada: "José, só arrasta aqui e já aparece tudo sincronizado." Fiquei a pensar se não era gíria pra assalto. Descobri uma coisa: há sempre mais um dashboard com password diferente. Deitei abaixo o sistema da linha de crédito inteira sem querer porque pus um assento no e-mail.
Agora, a verdade crua: este trabalho só existe porque há exército de gente que não pode simplesmente aceitar não pagar a renda, sobretudo quem tem filhos e é o "chefe" lá de casa (detesto esse termo, parece piada). Tô sempre com a impressão que a pressão financeira me emburrece aos poucos, nem é vergonhoso dizer. Só continuo porque: 1) salário entra todo mês e atraso quase nunca, 2) meus dois filhos viram a dizer "o pai comprou iogurte de morango hoje" e parece que sou rico por dois dias. Já tive ambição? Já fingi sonho, planos, carreira? Já. Agora a meta é: manter tudo na linha pra não fazer ninguém passar vergonha mestre das desculpas inventadas pros clientes e pro saldo bancário.
De vez em quando dá vontade de largar tudo e abrir quiosque no Alentejo, vender copinhos de fruta na praia. Só não faço porque alguém em casa precisa de luz, internet e (cruz credo...) streamings infantis. Dói bater com 40 anos na parede da "nova economia": aceitei que nunca vou ser fluente nisso de Teams, Google Drive, Haiku Deck, nem me esforço — cá não se quer gajos de Excel saber, querem polvos humanos, riem de ti por imprimir fatura. Só engulo o orgulho porque salário cai, nem que seja o mínimo dos mínimos.
PS: Se alguém passar pelo mercado do telemarketing achando que é moleza, não ceda ao engano. Sim, já atendi velhota que confundiu bloqueio do cartão com boicote da maçonaria, e o melhor é manter cara de call center: simpático até querer arrancar os cabelos. Aos 40, honestamente, se sobrevivi a isto, sou tipo Chuck Norris das Dúvidas do Utilizador. Só falta ser promovido a Lenda Urbana ou Case de RH para "resiliência extrema".
Firmeza pra todos/as que tramam dia sim, dia não no telefone por salário digno. Estamos juntos (mas cada um no seu cubículo, porque pandemia mudou tudo, mas não milagres).
comentários (16)
Trabalhar no call center é tipo fazer malabarismo com facas cegas, né?
Esse sistema que trava quando alguém passa pela rede não é coincidência, tem coisa aí mais obscura...
Ah, o call center aos 40: um combo de 'Senhor, aguarde...' com nostalgia da internet discada. Maravilha!
Visualizar a sina de tantos, fod_* viu, é revoltante demais.
Se fosse tu eu fazia um tutorial "Como quebrar XP e sobreviver ao headset". Seria blockbuster!
Nunca achei que a batalha contra menus infinitos e sistemas crashando fosse o combo da meia-idade, mas cá estamos. Imagino a saga para Googlear VPN no XP, isso deve ser épico!
Juro que nunca imaginei que minha maior habilidade aos 40 fosse sobreviver a labirintos tecnológicos e enfiar a cara em vômitos de sistema que caem mais que minhas promessas de dieta. Se Zoom fosse um esporte, eu tava de penta
Só eu que achei que ligar VPN no XP aí virou missão impossível do Mario Kart? A próxima corrida é no escritório, com plot twist de Wi-Fi caindo kkkk.
Mas afinal, esse sistema com 98 menus e mil abas não era suposto facilitar a vida? Só vejo confusão!
Se é pra pedir pra aguardar, pelo menos que o toque seja uma sinfonia, não essa cirurgia sonora!