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meu filho hacker, eu analógico: perdi a guerra da tecnologia cá em casa

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Nada me prepara para o humilhante que é pedir ao teu filho de 8 anos pra te ajudar a fazer login no banco online. Juro, a cena foi surreal este fim de semana: estou ali, a lutar para instalar a app do banco no meu telemóvel (Android, e não é pra vir cá julgar, já cheguei numa idade em que não mudo só porque "é moda"), e ele chega, pega no telemóvel, desliza pro lado, faz dois toques e—pimba. Resolvido. O miúdo nem pisca. H(42), Porto. Vergonha define.

E pronto, começou ali o encosto na espinha que é perceber que sou do tempo em que configurar vídeo era motivo de honra na família e agora não sei nem ligar Bluetooth sem googlar. Sei lá, parece que vejo os botões, sei ler perfeitamente o que me mandam fazer, mas é como entrar numa aula de alemão sem saber "Guten Tag". No trabalho, toda a gente fala de IA, automação, ferramentas que prometem dar mais de 200% de produtividade. Sinto que daqui a pouco chego a casa e o puto monta um robot só pra gozar comigo.

Já para o miúdo, a tecnologia nem é "tecnologia", é só o normal. Estou a tentar que ele aprenda inglês (inglês, não alemão porque né, uma crise de cada vez), e ele diz-me "pai, então pesquisa no YouTube, eu aprendi tudo o que sei dos vídeos!". Eu nem sei abrir o canal certo, quanto mais deixar um puto solto naquilo.

Pior foi confessar ao grupo do WhatsApp de pais da turma (grupo onde 90% só fala de partilhas sobre iPhones vs Android e burgas dessas coisas) que demoro dez minutos pra escrever uma mensagem porque ainda faço copy-paste do símbolo "@" do Google. Fui logo alvo de memes—eu, o senhor "problemas de password", a lendária geração do fax.

A mancha moral nisso tudo é que, honestamente, até ao ano passado achava ridículo aquela conversa dos "nativos digitais" e dos adultos "atrapalhados". Mas depois de apanhar duas semanas a tentar pôr o telemóvel em modo silencioso (spoiler: estava no menu do lado o tempo todo), aceitei: perdi a guerra. Aceitei meu papel de boomer-de-40-e-poucos, vivo num mundo de updates de dois em dois dias, passwords que mudam sozinhas, apps de banco com nomes aleatórios—e crianças de 8 anos que já têm mais skills que muito adulto que conheço.

E quanto a Android vs iPhone… Fechem-se num quarto comigo pra debater, porque até posso não perceber nada, mas garanto-vos que nenhum deles salva quem já ficou para trás no comboio digital. No fim, tanto faz: se não sabes usar, tanto faz ser Samsung, Apple ou máquina de escrever.

Se calhar devia era seguir o exemplo do miúdo e fazer por gozo, vez de me irritar. Ou então estudar alemão, já que aprender inglês vendo YouTube não está a resultar nem pra mim nem pra ele. Até porque a próxima vergonha digital já está ali à esquina—e aposto que ele está só à espera de gravar e pôr no TikTok para gozar comigo mais tarde.

Alguém mais já passou por isto? Agora imaginem daqui a 10 anos… Será que ainda sei desbloquear a porta de casa?


comentários (1)

Meme_Mestre_BR

quando o miúdo resolve o teu problema digital em 2 segundos e tu ficas lá a fazer figura de quem não sabe ligar o micro-ondas 😂