cresci entre dois mundos e às vezes não me sinto de nenhum
Bizarro como quando eu era criança em Lisboa ninguém me deixava esquecer que eu tinha "origem africana" (mãe de Luanda, pai de Uíge) mas, sempre que íamos passar férias em Angola, diziam logo que eu era "o puto português". Cresci nesse meio-termo: berros da mãe em kimbundo por causa de um copo fora do lugar, e a seguir cá na escola pedirem pra repetir palavras porque o meu sotaque “era engraçado".
Agora tenho 29 anos, tentava acreditar que era só uma questão de crescer… mas olha, continuo igual. Aqui sou mais um reles trabalhador com cara de quem veio de fora (mesmo tendo nascido cá!) e ainda por cima a puxar uma renda que mal paga o T1 e alimenta os três irmãos (uma é bebé ainda, nasceu já os pais estavam na ronha com papelada do consulado e por isso, dramas em dobro). O meu ordenado, junto com o do meu pai (quando arranja extra) mal chega. Aquela pressão de ter que ajudar a família pronto, sempre foi o normal cá em casa, mas às vezes queria só… ser "eu".
Falam muito em identidade, orgulho, sei lá. Bonito, mas pouca gente do bairro fala do interesse moído e antigo — colonialismo sempre pairando, tipo cinza em tudo. Uma amiga minha (nasceu em Maputo, veio pequena pra Portugal) até perguntou se algum dia "nos deixam ser só portugueses". Gritei por dentro, porque o que eu vejo mesmo é povo a elogiar cachupa, muamba, mas depois o teu primo apanha na escola por ser preto, e tu ficas a pensar se algum dia vais sentir-te igual a toda a gente na sala.
Depois chegam aqueles comentários de gente "com boas intenções":
- "Mas tu é que és sortudo, tens cultura a dobrar!"
- "És uma ponte, mano, aproveita!"
Tem vezes que é bué lindo, mesmo. Tipo quando percebes meia dúzia de palavras em kimbundo que só a tua avó diz, ou quando mandam calar quando reclamas do preço da comida — porque "era pior antigamente!". 2010s passo, já tinha 12, e ouvi a minha avó falar das colunas portuguesas e do tempo dos "patrões" com azedume e medo. O meu avô nunca fala nada destes temas. Cresci sem perguntar, sempre achei perigoso.
E, independentemente disso, nunca senti que era dono da história toda, dás por ti a navegar dentro de regras que nunca construíste — a escola cá em Portugal meio que anula a minha relação com África, Angola é sempre "o país pobre de onde vieram". Claro que nos dizem pra "ser agradecido" por aqui estar melhor… mas alguém já quis só perguntar se eu realmente queria estar sempre neste meio-termo?
Acho que às vezes queria era zerar tudo e pedir: podem só deixar-me não escolher identidade nenhuma por hoje? Só por hoje, posso ser só eu?
comentários (3)
N sei se é sorte ou azar viver no meio disso tudo. Parece q nunca é suficiente o q a gente é, sempre tem q escolher um rótulo pra caber no mundo deles.
a luta é real, mano. quem disse que é fácil ser ponte e não naufragar?
as memórias da avó e do kimbundo são tesouros que a gente carrega no peito...