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aos 34, larguei o emprego, troquei tudo por menos (e não estou arrependido)

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Nunca pensei que um dia ia escrever isto, mas aqui estou: larguei um emprego "seguro" aos 34, comecei um curso novo aos 35 e, para surpresa da família inteira (e de parte de mim), até agora não tenho saudades nenhumas do corre-corre ridículo de antes. Tinha aquela vida copy-paste, sabem: acordar cedo, trânsito, trabalho, almoço apressado, trabalho outra vez, casa, sofá, scroll infinito, dormir mal, repetir. Cinco anos nessa rotina e a sensação só afundava. O salário até estava bom para padrões portugueses, mas sentia-me o tipo de pessoa que desliga do corpo às segundas e só acorda realmente às sextas às 19h.

Rolou crise existencial pesadíssima nos 30. Uma amiga minha diz que é "a crise eterna de quem não nasceu milionário". Não é só dinheiro, pá, é tudo: olhava ao espelho e não via um adulto feito, só um puto aldrabado num fato alugado. Uma manhã fui tomar café e, sem drama, decidi demitir-me naquele dia. Nem foi por causa de chefe abusivo nem nada, só não queria mais aquele vazio. A família? Ficou absolutamente passada. Aquela ladainha de "trabalho fixo não se larga", blá blá blá.

O mais irónico foi sentir um alívio doido no dia seguinte. Um vazio, sim, mas agora era silencioso, não o vácuo barulhento do escritório. Para não fritar, meti-me num curso online de UX (nunca pensei em tech, mas parecia tudo menos sentar atrás do mesmo computador a esmifrar excel). E por favor, não venham já gozar: nunca aprendi tanto tão rápido, nem no liceu, nem no início da carreira. Estudar velhote é diferente — a malta nova vai no automático, eu estava ali nervoso mas bué focado. Cada aula fazia sentido.

Enquanto isso, comecei a cortar tudo lá em casa. Se minimalismo é moda ou só resultado de estar liso, tanto faz: vendi metade das roupas que nunca usei, dei livros (só guardei meia-dúzia), tirei tralha dos armários e doei. O espaço ganhou outro ar. Menos coisas para arrumar = menos tempo a pensar em porcarias.

Ah, e finalmente ganhei dinheiro a sério... por acaso. Um primo chamou-me para um projecto curto, freelance, pagou logo. Não estou a mentir: foi a maior transferência que vi na vida (mesmo descontando impostos). Fui quase ao multibanco só para olhar para o saldo. Agora digam: porque é que, quando temos finalmente o extra, ficamos sem saber o que fazer? Gastei 30 paus em sushi bom e o resto está parado porque, sei lá, medo de estragar ou perder. Talvez isto seja ser adulto também — baixar as expectativas, não gastar tudo de raiva.

Desde então tenho lido mais, dormido melhor, enganado apenas a pressa e passado muito menos tempo no Instagram. Senti o "medo de falhar" a roer de leve de vez em quando, principalmente quando alguém pergunta o clássico: "Então e agora, o que fazes mesmo?". E só digo: "tudo ao meu tempo". O mundo parece esperar que, depois dos 30, sigas só num trilho — emprego, casa, poupança, quem sabe filhos se for o caso. Saí desse trilho, ainda me sinto perdido mas nem quero voltar. Talvez daqui a 10 anos eu ache tudo isto uma asneira, mas pelo menos não fui sempre normal.

Mas pronto, ainda estou a tentar perceber: um trabalho mais soft, menos coisas à minha volta para dar trabalho, horas de sono decentes, ganhar dinheiro por fazer algo que acho desafiante... parece tão aborrecido perceber isto só aos trinta e tal, né?

Alguém fez mudanças grandes depois dos 30? Sinto mesmo falta de ouvir histórias reais porque uma pessoa sente que está sempre sozinha nisso.


comentários (1)

LaraRebeldia_91

Ah, tá tudo muito lindo até a conta do primo aparecer, né? Que atitude é essa de largar tudo sem pensar no amanhã? O mundo não anda a pedir trilho à toa, isso chama-se responsabilidade e tu jogaste fora. Depois ainda fica a bancar o não arrependido, só porque vendeu umas roupas e deu uns livros? Isso é ilusão barata de liberdade. Acorda!