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viver (mal) do futebol em angola: talento não paga contas nem vai ao médico

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Nunca pensei que ser treinador adjunto num clube médio de Luanda me pudesse deixar tão desgastado física e mentalmente. H(33). O futebol em Angola tem miúdos com talento que até arrepia, tipo moleques a fazer magia no meio do musseque, com bolas feitas de plástico derretido e tape, finta atrás de finta. Só talento não resolve nada quando a estrutura é zero e o país é aquele caos de sempre.

Posso falar porque vivo a cena todos os dias. Trabalho de manhã a dar treinos — e mesmo isso é giro, se ignorares o relvado de terra batida, as balizas tortas e as bolas gastas ao ponto de parecer mais pedra do que esférico. À tarde, vou vender tempo de uso de internet num ponto improvisado de "cyber café" numa rua cheia de poeira, porque o salário certo do clube é uma miragem. Há meses em que sou pago com promessas. Promessas dos diretores, que são sempre amigos de algum político qualquer, e depois dizem coisas tipo "agora não há verba, tens de compreender a situação".

É fácil dizer que "há talento de sobra", e é verdade. Já vi putos de 14 anos a jogar bola como não se vê nem na primeira liga de lá fora. Aparecem olheiros de Portugal, do Congo, e quando perguntam pelo plano de carreira dos miúdos eu só soltei uma gargalhada — qual plano, se os gajos nem conseguem ir ao médico quando se lesionam? Sim, porque o sistema de saúde em Angola é aquela coisa — não entras num hospital público sem papel na mão, e o privado está cada vez mais só para os "grandes".

Já tive que pedir favor a conhecido para um dos meus atletas fazer raio-x a um tornozelo partido depois de um jogo. Se não conheces alguém dentro, vais estar na lista meses, isso se não pagares "gasosa" para acelerar. Alguns nem sequer fazem tratamento, jogam aleijados, forçam o corpo para não perder lugar e — claro — para tentar salvar qualquer hipótese de serem "descobertos". Dói ver, mas sinceramente, ninguém nos ouve mesmo.

Políticos então? Todos iguais, não venham com aquela conversa da "nova geração". São sempre os filhos, sobrinhos, primos dos mesmos de sempre. Vêm às competições no bairro para a selfie, levam os miúdos a fazer desfile e depois quando alguém pede bolas ou equipamentos é só sorriso amarelo, promessa "para breve". Essa semana mesmo ouvi um a dizer: "o desporto é prioridade para a juventude!". Prioridade porque é bom para discurso bonitinho na rádio — nunca vi nenhum deles meter a mão ao bolso.

O povão vibra pelo futebol: aqui é paixão, é escape, é identidade. Todo domingo tem jogo no bairro. Só que os treinadores, os jogadores, até quem lava o fardamento, muita vez saem dali directos para um "biscato" — é entregar encomenda, vender à beira da estrada, conduzir Hiace ou vender churrasquinho à noite. Eu mesmo já fiz um pouco de tudo: cola, recarga, transportei caixa e, nos dias maus, até pensei em meter-me de volta a dar aulas numa escola que pagava uma miséria.

Queria dizer que é só questão de esperar, que vai melhorar. Não vai não, ou ao menos não rápido. Vejo cada vez mais amigos a desistirem, a tentar "passar" para Portugal ou África do Sul. Sobra-nos quem ainda acredita, mas acordar cedo todos os dias para trabalhar em dois empregos e fazer contas no final a roçar o vermelho enerva-me bué. Dá-nos orgulho ver, vez ou outra, um miúdo sair e virar estrela (é raro), mas a maior verdade é que a grande maioria fica pelo bairro, joga por amor e, muitas vezes, "escangalha" o corpo sem ganhar nada que chegue para pagar médico, escola dos filhos ou sequer almoço de domingo.

E repito — talento não falta. Falta é respeito, estrutura, investimento, mínimo de saúde para esses jovens. Não me admira que muitos acabem desiludidos, outros ainda visem os esquemas que os dirigentes fazem, e, no fim, o futebol que devia ser orgulho do povo acaba a ser só mais uma promessa não cumprida.

Se alguém acha que futebol aqui é caminho fácil, queria que passassem só uma semana ao meu lado.

(Ainda assim continuo — porque se for para desistir disto, aí sim já não sou eu.)


comentários (6)

DJ_Kassav_MZ

Puta que pariu, vender recarga enquanto tenta salvar o futebol do país... o espírito é gigante, mas o cenário tá tenso demais

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Zeca_Tequila77

vender tempo de internet pra pagar o que devia ser salário oficial? kkkkk essa cena até parece piada de mau gosto, mano. Futebol lá virou esquema de malandragem mesmo, se não rir, chora! Quem dera no bairro da minha quebrada fosse só bola de plástico derretido...

Marcos_Carioca

Ah, Angola no futebol parece um ciclo vicioso: talento incrível, estrutura zero, e políticos só com discurso. É triste ver essa realidade.

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Amândio_Jesuíno OP

é tipo um filme que nunca acaba, só que sem regresso nem falas engraçadas pra aliviar o drama.

Tati_Malamba

E aquela história dos políticos só darem moral na foto? Já virou meme de verdade!

user_7358

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