para que serve a política aqui? (moçambicano a perder a fé)
Olha, pode ser só o cansaço a falar, mas hoje acordei com aquela sensação amarga de déjà-vu: tudo na mesma, ninguém move uma palha, e só os mesmos de sempre que andam de jipe grande e casa cheia. Sei lá, é tipo viver num loop. Sou H(37), Maputo, há 12 anos funcionário público e juro que a minha paciência foi morrendo aos poucos, igual ao poder de compra do meu salário.
Quando entrei, pensava: “agora vou contribuir para o país, pelo menos faço parte do tal sistema que é suposto ajudar a construir Moçambique novo”. Que ilusão, minha gente! Hoje, tudo o que vejo é um Estado mastodôntico, inchado, mas sem plano em concreto para quem levanta às 5h e ainda apanha chapa superlotada pra chegar no serviço. Há subsídio de transporte? Na teoria sim, mas na prática só chega pra quem tem padrinho melhor colocado. Eu, como muitos colegas, já desisti até de reclamar. Reclamar parece que já faz parte do próprio trabalho: assinar, carimbar, ouvir promessas vazias sobre "reajuste" que nunca chega, e claro, sorrir nas fotos no 25 de junho como se estivéssemos cegos.
O que mais me entristece? Acho que nem é só a miséria de salário (que é!). É ver a coisa pública tratada como negócio privado. Já perdi as contas de quantas vezes vi chefe inventar "projeto" só pra desviar fundo, com papelada fictícia, assinatura a pedido, despacho na sexta pra ninguém notar. Todo mundo vê e ninguém fala nada porque, já se sabe, se abrires o bico viras bode expiatório. Mandam-te pra Mueda ensinar geografia ou vão buscar rabos de palha do passado, tipo multa de trânsito nunca paga.
E eu lembro do que os meus pais (eles vieram de Angola, cheios de esperança pós-independência!) sempre diziam: "Aqui vai ser diferente, a nossa geração é a da mudança!". A sério? Passaram-se 40 anos, uns mudam de partido mas mantêm as caras, a corrupção continua como sempre — transferida de Luanda pra cá, já nem dá pra distinguir. Até algumas das piadas que ouço do lado angolano combinam bué com o que vivemos, é tipo tudo parte do mesmo script: roubalheira, "projectos fantasmas", promessas nas campanhas e sempre o velho truque do pão de oferta enquanto esperam o voto. Só pra depois esquecermos quem somos e quem fica com o brinde real.
Antes achava que só era eu que sentia esta impotência, mas conversando com camadas nos ministérios, taxistas que trocam notas por favor, professores que descrevem esquemas para garantir vaga pros sobrinhos deles — pá, toda a gente tem a mesma mágoa. E todo mundo silencia porque, sinceramente, viver de salário só na conta nunca dá. Podia aqui inventar que "há esperança, só temos que nos unir", mas seria mentira se dissesse que alguém realmente acredita nisso agora. Talvez na geração dos miúdos tudo mude, mas vendo bem, são eles próprios já a aprender que ser direito é ser burro. Quem avança são os que jogam o esquema, fazem "amizade certa", aprendem cedo que tudo se compra — até justiça, até saúde, até dignidade da casa própria.
E depois vejo notícias disso de "Moçambique a crescer", "macro economia estável" — me desculpem, mas devia haver um prémio Prémio Nobel pra estatística que tapa miséria real. O salário base, esse nunca cresce, e cada vez menos pão na mesa. Porra, e tu vais pedir reajuste, dizem logo "vê se gostas, se não outros mil lá fora querem este lugar". Quem é que vai lutar pelos direitos se cada um está só a tentar sobreviver? O problema é maior: não existe ainda um sentido coletivo, uma indignação perigosa o suficiente pra abanar o poder central. Todo mundo fala no bar, mas nas urnas é só mais um sim descontente, porque medo ainda vence indignação.
Devia ser proibido prometer mais estradas, escolas ou hospitais de fachada quando não conseguem nem pagar quem varre as ruas deles. A corrupção tornou-se parte do nosso dia normal — "oh muana, não reclama, é assim mesmo, desenrasca" — e dentro de mim cresce esta raiva resignada. Eu sei que Moçambique merece melhor do que isto. A pergunta é: será que vamos ver isso ainda nesta vida, ou vai ficar mais esta história pros nossos filhos repetirem?
Desculpem lá o desabafo mas hoje precisava de escrever isto pra não explodir. Só queria ver um dia alguém ser responsabilizado, um amigo promovido não pelo apelido mas pelo trabalho, o salário render mais que quinze dias, e não sentir vergonha de dizer que ainda sonho.
Quem mais sente assim? Ou sou só eu a entrar na curva dos cínicos depois dos trinta?
comentários (74)
Nem sempre é fácil aguentar esse desânimo, mas o simples ato de partilhar já é um passo pra não deixar a chama morrer. Às vezes, parece que a luta é solitária, mas tem muita gente aí, firme, mesmo sem muito barulho.
Se já perdeu a fé, como espera que algo mude? Pior que reclamar é não fazer nada.
Tá difícil acreditar nesse papo de “mudança” quando a mesma corja troca de cadeira e continua a mandar na parada. Se até quem tá dentro do sistema se recusa a reclamar direito, como que esperançosamente esperamos alguma coisa? O problema não é só o salário, é o sistema podre e a ideia de que ficar calado traz menos problema... triste, mas é assim.
Pá, tô aqui a pensar se algum dia essa tal “mudança” virá mesmo, ou se estamos destinados a esse ciclo infinito de desgosto e desgaste. Mas tua honestidade já é um sopro de coragem que poucos têm – valeu por botar o dedo na ferida assim, sem medo. Quem sabe, essa conversa derrama alguma luz que a gente nem espera.
Tá tudo dominado pelos mesmos, e o funcionário público que pensa diferente que se cuide, né? Quem quer jogo limpo tá fora do esquema e perde o bonde rapidinho. É assim que o sistema garante que só os mais macacos sobrevivem. Ô lugar difícil...
Já tava a pensar que só na minha cabeça este circo tá armado! Roubalheira virou moda, parece novela sem fim...
mano, já perdi a conta das vezes que ouvi essa ladainha de 'só muda a cara mas o esquema é o mesmo'. e no fim? a gente topa que é melhor se virar sozinho pq ficar esperando melhora do governo é como esperar chuva no deserto. triste mas é real.
Bro, isso é tipo o golpe do chapéu em loop infinito, né? Quem aguenta essa novela sem fim?
Bro, sério, já tentei entender essa política toda mas acabo só ficando mais confuso. Tipo, como é que tem tanta coisa errada e ninguém faz nada? Parece até novela repetida com os mesmos personagens cagando pros outros. E agora, quem é que vai mudar quando todo mundo só quer se garantir?
Ah mano, quando o teu salário quase dá pra comprar um abraço da tua mãe já vê... politica aqui parece novela sem final feliz, o elenco é sempre o mesmo, só mudam os figurantes. Só espero que essa geração nova não aprenda a jogar esse jogo sujo, senão estaremos mesmo lascados. Aí é que não sobra 1 jaca pra ninguém!