já não sei viver off-line (e suspeito que a maioria também não)
Nunca pensei que um dia ia sentir falta de tédio. Parece piada, mas juro, há tempos que não sei o que é simplesmente estar ali, parada, tipo, sem estímulos, sem vontade de puxar do telemóvel, sem aquela sensação de "tenho mil coisas para resolver e devia estar a fazer todas ao mesmo tempo". Sinto que perdi a habilidade básica de só existir.
Não sei se isto é burnout ou só o normal de ser M(32) que trabalha, estuda à noite, tenta fazer ginásio (nem sempre), ver a família umas vezes por semana e manter uma outra amizade para não parecer completamente esquisita. Meu cérebro é aquela aba do Chrome: aberta com duzentas coisas, a rodar updates que nunca pedi e a abrir pop-ups de autocobrança o tempo inteiro.
O culto da produtividade bate pesado. E sabe o que é mais doido? Mesmo quando tiro tempo para mim, surge logo aquele bichinho de que devia estar a "aproveitar" para aprender japonês, fazer meal prep, inventar um side hustle, meditar, tratar da pele e organizar a Dropbox. Não é descanso, é só uma versão menos ruidosa da lista interminável de tarefas. Quando descanso até me sinto culpada. Sofro do "paradoxo da escolha": há tanta ferramenta, app, rotina, tipo de exercício e vudu de autoaperfeiçoamento que acabo por não fazer nada direito. Fico paralisada a pesquisar, comparar, planear — só não faço de verdade.
Tenho notado uma cena grave: a medicalização de tudo. Falas que não dormes, receitam logo comprimido. Estás cansada, suplementos. Tás triste, toma não sei o quê para o cérebro bombar. Antigamente minha avó dizia que tédio curava-se brincando na rua ou dormindo cedo. Agora, qualquer desconforto = pílula. Ninguém aguenta a mínima fissura emocional, tudo tem de ser resolvido de insta, nem que seja varrendo para debaixo do tapete com um comprimido novo. Eu sou pró-ciência, não me entendam mal, mas também noto cada vez mais em mim e à minha volta um desespero de pôr patches no software, sem nunca ver o sistema inteiro.
Fico a pensar: será que já vivo no piloto automático? Eu olho para trás e parece que os últimos 5 anos passaram e eu nem registrei intervalos. Saí de casa dos pais, comecei o emprego novo, fiz um mestrado que nem sei explicar porquê, aumentei pequenas dívidas porque já "toda a gente tem", mudei de casa duas vezes, e continuo aqui igual mas sempre exausta. Às vezes nem sei se escolhi alguma dessas cenas. Só fui na onda, sabem? Tipo cek (sei lá quanta gente faz exatamente igual, só parece mais ajeitado nas redes sociais porque partem só os highlights). Lá no fundo, acho que tá todo mundo perdido igual.
Depois há isto: a mania de que devíamos desbloquear 110% da vida, all day, everyday. Ninguém pode admitir que ficou a ver TV de forma passiva, não há espaço pra ser só... normal. Até felicidade parece produto de coaching e as dúvidas existenciais, motivo pra experimentar outro chá que promete milagres. Às vezes acho que a única solução era perder o telemóvel ou ficar sem internet. Mas se calha de sobrar 10 minutos entre reuniões, lá estou eu no TikTok, Instagram, a comparar a vida dos outros e sentir que devia ser "melhor".
Sei que não trago solução nenhuma e, francamente, a vibe de autoajuda coaching já me começa a dar alergia. Só precisava mesmo de despejar isto, ver se alguém se identifica ou se só eu tou a surtar nesse modo frenético-embora-sedentário. Mais alguém sente que a nossa geração tá a ser engolida por estas cenas do excesso de escolha e produtividade tóxica e ninguém está realmente FELIZ?
Se conseguirem parar o scroll para responder, agradeço.
comentários (77)
Parece que a gente virou refém dessa tal "correria sem fim" né? Tipo, onde foi parar o espaço pra deixar a mente desligar? Curioso é que muita gente até suspira por quietude, mas quando chega, bate aquele vazio estranho que ninguém sabe preencher. Tá complicado mesmo.
Tá tudo tão corrido que se a vida fosse filme, era daqueles de ação frenética, sem pausa pra respirar!
quero muito não depender tanto do telemóvel mas é um vício que não consigo largar 😩
😵📱⌛🤯💊🤡💼🏃♂️❌😴🍃🎭🚪
Se a pressão fosse gente dava umas boas porradas!!
mais fácil dizer pra desconectar que mesmo a gente sabe q n vai rolar, né?
Já dizia meu avô: viver assim é como tentar correr atrás do vento.
Eu até tento... mas aquele botão de soneca no celular é meu melhor amigo!