o preço do peixe subiu mais que a minha paciência — comer bem é luxo em são tomé?
Hoje, tentei fazer a mesma coisa de todas as terças-feiras: fui cedo ao mercado comprar peixe, fruta e o resto que faltava para a semana. Mas desta vez saí de lá revoltado, cansado e com menos compras na sacola do que deveria. Não estou a exagerar, o preço do peixe subiu de novo — disseram-me que é por causa do “tempo mau” e gasolina, mas sinto é que já estamos habituados à desculpa. Uma família média aqui em São Tomé já não consegue meter proteína de jeito na mesa nem metade dos dias. Parece conversa de velho, mas juro, nunca vi nada assim.
Primeiro ponto já foi doloroso: uma pescada média tá agora 70 dobras no mercado central, tinha semanas a rondar 45/50. E se nem o peixe, que em teoria nem devia faltar numa ilha, tá acessível... quer dizer o quê? Resolvi perguntar à senhora da fruta se está a vender menos ou mais -- ela soltou aquele sorriso triste, "o povo agora compra metade e passa vontade, meu filho.” E ainda ouvi alguém resmungar que até mandioca virou artigo de luxo pra acompanhar. Meu pequeno-almoço de sempre — fruta, pão, um bocadinho de ovo — há um ano atrás podia pagar sem stress. Hoje preparo menos, divido tudo e continuo a andar com fome às vezes.
Bonito é ver como cada vez se fala mais em “alimentação saudável” no Facebook: dizem que temos que comer bio, que o óleo faz mal, que verdura isso, que açúcar não se deve. Boa teoria. Queria ver os especialistas correrem atrás de feijão aqui, pagar tudo ao preço do ouro e sair a defender a banana-pão frita como se votássemos na ONU para património mundial.
Desculpa, mas saúde pública, aqui, começa por poder comprar comida de verdade. Tanta ONG dando palestra de "vitaminas e vegetais", tanta campanha para mãe aprender a fazer papas reforçadas, mas quem fiscaliza se chega peixe fresco em condições ao interior, ou se o arroz da cesta básica realmente não tá mais cheio de gorgulho que de nutrientes? Ministério só aparece pro retrato na TV, mão na massa tá raro.
Dou mais um exemplo: minha irmã trabalha numa escola. Os miúdos chegam vazios. Falaram que iam reforçar a merenda, mas continuam a dar pão duro e chá "frio" quando há. Fora os dias de nada, que pelo menos uns biscoitos aparecem. Depois querem milagre no aproveitamento escolar — como, sem comida decente?
Outra coisa que não se comenta: já notaram que pratos típicos, esses que toda gente posta no Dia da Independência cheios de palmadas e roupão bonito, viraram refeição só de data especial? “Muamba”, “calulu de peixe”... virou fantasia. Dia a dia é mais arroz com óleo e fé. Prateleiras dos mercados de bairro têm tomate super maduro caro ou só pó nos baldes. Batata-doce, antes comida básica, outro produto especulado. Fico a pensar nas promessas de governo de 2023 para baixar preços pelo incentivo à produção interna, mas só melhorou é retórica.
Tive de aprender a negociar desconto, a remexer na banca para achar tomate bom, a fingir que carne congelada de "quem sabe de onde" é o mesmo que vaca criada no mato do pai. E honestamente, cansa. Pior: parece que a gente normalizou.
Se a conversa no governo é que estamos “alinhados para a segurança alimentar”, então os srs governantes precisam passar uma semaninha só com o que um salário mínimo dá aqui. Ou testem viver só de produtos do campo sem levantar fio vermelho entre conhecidos, aí vêem a realidade: roupa do supermercado aumentou, comida é pesadelo, luz sempre cara porque frigorifico só trabalha metade do mês. Até para cozinhar, o gás suma ou então prepara lenha. Mas aviso, não há lenha para quase todos, então boa sorte.
No outro dia resolvi perguntar na rádio local porque o peixe aqui custa quase igual a França (onde diz o rumor que exportamos metade do bom). O senhor do comité explica tudo bonito: “exportação é necessária, gera divisa, São Tomé tem potencial, é assim no mundo.” Muito certo, muito técnico. Só gostava que algum dia o potencial se notasse no prato da minha vizinha, que come banana frita e chá de folhas para enganar a fome, porque pro governo parece que "insegurança alimentar” é só notícia de noticiário internacional.
No fundo, só pergunto: onde é que isto vai parar? Comer bem na terra onde nasci virou luxo. Não devia ser.
Alguém mais sente esta luta diária? Como é o vosso truque para meter as proteínas e o verde sem ir à falência? Já pensei em experimentar criar galinhas — dizem que é solução caseira, mas se até milho está pelas horas da morte...
Fico à espera de alguém que diga que é só fase e vai melhorar — já nem sei. Pelo menos, aprendi a dar valor ao que entra no prato, mesmo que repita arroz e ovo semana sim, semana não.
comentários (36)
Já devia era era ser proibido subir preço de peixe num país que vive disso. Parece que querem q a gente fique só na fé e no arroz.
Parece que a gente aqui em ST tá pagando caro pra se alimentar básico, enquanto em outras ilhas o peixe nem tá assim tão caro. Dá uma inveja danada...
quero nem imaginar como tá o rango pro pessoal mais pipoca aí em S. Tomé, isso virou desafio nível hard. 70 dobras num peixe? dá pra comprar a ilha inteira pra ter uma refeição decente..
Se comer calulu virou museu, bora virar arqueólogo de receita, tanta caixinha de surpresas!
E será que tão a lucrar mesmo os que vendem? Esse aumento é armadilha...
Depois de ler isso, fiquei mesmo impressionado com tua capacidade de resistir sem pirar. Aqui, tudo sobe e a gente nem sabe mais onde segurar. É surreal!
vem cá, isto tá ficando triste demais pra ignorar. ninguém merece passar fome assim
É um aperto mesmo, a fome não escolhe dia nem hora.
Vi esses preços e fiquei pensando: quem será que tá lucrando com essa treta toda? Porque coitado do povo, o bolso que sofre é sempre o mesmo.
Olha, se os preços continuam assim, daqui a pouco "muamba" vai ser só pra quem ganha salário de CEO. Até o peixe tá na elite agora!