o nosso acordo aberto é segredo (e ninguém entende a diferença entre privacidade e mentira)
Tentem imaginar a ginástica mental: vivo sozinho pela primeira vez, num studio minúsculo nos arredores de Lisboa (H/34), dividindo a paz do meu canto com o meu próprio eco e uma cabana de plantas mortas que insisto em tentar salvar apesar de saber zero do assunto.
Estou já há quase dois anos com a M. Ela tem 26, eu tenho 34. E para muitos, já aí há red flag — diferença de idade = logo must be creepy ou desequilibrado, como se não fôssemos dois adultos funcionais (à nossa estranha maneira, mas pronto). Na verdade, a nossa diferença de geração só aparece mesmo quando o assunto é referências de animes, ou ela chama "Fred Durst tipo se fosse novo" e eu sinto um idoso.
O grande segredo, que é quase piada interna, é que – sim – temos um acordo: nossa relação é aberta. Mas ninguém sabe. Tipo, ninguém MESMO.
Tanta gente fala desses temas como se fossem moda, mas eu tive que esconder isto até de amigos próximos porque, honestamente, é raro confiar em alguém para não transformar tudo em telenovela. A noção que a maioria tem aqui é: se não contas, é porque é "traição", "aldrabice", sei lá. Já cansei de discussões em que a regra subentendida é: privacidade = mentira se foge do que os outros querem saber.
Falando em mentiras: a verdade é que o jogo subtil das red flags nos relacionamentos tem mais a ver com isto do que o pessoal admite. Não é preciso alguém falhar em msg ou aparecer perfumado para haver sinal amarelo. Às vezes o que devia preocupar é aquela incapacidade de falar do que se sente — ou pior, quando alguém só pergunta da tua vida para ver se está tudo "normal", nunca porque quer mesmo saber. Em cada jantar com amigos solteiros (poucos sobraram, aliás) reparo nessa curiosidade curiosa, quase invasiva: não perguntam "como vais?", perguntam "então, e vocês? tudo certo? ouvi dizer que ela saiu sozinha outro dia no bairro alto?" Ridículo. Eu só penso: cada um tem red flags mais visíveis do que imagina.
Achei que morar sozinho seria sinónimo de autonomia total, mas é mais tipo fator de risco para overthinking. O silêncio torna certos segundos incómodos: tipo, esta semana, vi uma msg da M num tom meio estranho, e pronto, já me pus a matutar. Mas parei e lembrei: se há acordo (claro, conversado mil vezes, limites bem definidos etc., não aquele "open" que é desculpa para safadeza), então tenho de confiar mesmo quando os outros duvidam.
A parte que as pessoas nunca admitem é que privacidade é ESSENCIAL em qualquer relação, aberta ou monogâmica ou sei lá what else. O stress de sentir que deves satisfações a todo mundo — pais, amigos, colegas, até desconhecidos online se desconfias que alguém te chega a stalkar — é mesmo cansativo ao ponto do absurdo.
É meio irónico: ninguém parece disposto a lidar com as conversas difíceis quando o ideal era normalizar que certas dinâmicas não são da conta de ninguém. Se há coisa que já aprendi (às vezes à força) é que a honestidade nas relações não é dizer tudo, o tempo todo. É saber reconhecer as tuas verdades e regras, mesmo que fujam do enterro coletivo que é "normalidade" amorosa cá. E ignorar quem acha invulgar uma mulher gostar mais de sair do que o homem da relação. Ou estranho é assumir algum desconforto e conversar, em vez de fingir que não existe.
No final, se querem saber mesmo: vive-se melhor sendo honesto sobre quem se é, sem precisar esfregar pormenores na cara de ninguém. Até ajudava um manual: "como estar num relacionamento aberto e sobreviver a jantares de grupo sem revelar demasiado nem sorver vinho demais para não soltar o segredo todo". O mais chavão de tudo? A verdade salva-te mais da ansiedade do que qualquer etiqueta, e quem não sabe lidar que trate da própria vida – ou plante menos perguntas que as minhas plantas defuntas.
P.S.: Há por aí mais alguém que vive coisas destes "acordos não standard" (nem só abertos, mas qualquer cena fora do costume) e sente que mentir não é esconder, é só proteger o território? Ou sou só eu a racionalizar?
comentários (66)
É revoltante essa pressão de todo mundo meter o nariz onde não foi chamado. Privacidade tem que ser respeitada, ponto.
pqp, morar sozinho e ficar obcecado com uma msg da mina? eu tô até com inveja dessa pegada, aqui é só solidão e silêncio mesmo
pqp, viver sozinho e ainda com essa paranoia deve ser punk demais
Prefiro mil vezes relações com diálogo aberto do que essa hipocrisia que cansa e sufoca a alma da gente.
gente, viver sozinho é um ótimo combo pra overthinking compulsivo
Olha, essa conversa toda de acordos e privacidade me parece um passo meio confuso. Se é aberto, então não devia ser segredo. Ou é liberdade ou é mentira, não tem meio termo pra mim.
Cês já pararam pra pensar como esse lance de 'acordo aberto' é tipo uma dança invisível? Meio que exige confiar tanto que quase vira telepatia... só que tem que saber a hora de não espionar o parceiro, senão vira novela mexicana. E essa tua história das plantas mortas só me deixa com mais vontade de salvar as minhas também, mesmo que eu não saiba nem plantar feijão.
Na boa, essa história de "acordo aberto" é cheia de nuances que pouca gente entende mesmo. É tipo um contrato não escrito cheio de letras miúdas que o pessoal ignora.
Ah claro, o segredo é o que torna tudo tão especial, né? Tipo, manter a relação aberta em segredo pra mostrar que vocês são muito maduros e a galera que comenta é que tá errada. Que original, nunca vi isso antes. Parabéns pela inovadora norma social de esconder as coisas pra manter a privacidade, muito revolucionário mesmo.
Esqueceram de ensinar que respeitar a privacidade é proteger, não limitar. Se todo mundo se meter, a relação vira circo sem lona.