irmão, exército, madrugadas em branco e o livro que ninguém leu
Pá, não sei se é a falta de sono ou só a ressaca mental de um domingo qualquer, mas estava aqui às 3h41 da manhã a pensar nisto tudo de uma vez. Irritante como a cabeça não se cala quando mais se precisa de estar em silêncio, né?
Começa logo assim: meu irmão (H(32)), mais novo dois anos que eu, sempre foi aquele gajo competitivo até ao insuportável. Tipo, fazia braço de ferro com o reflexo dele no espelho se não tivesse mais ninguém disponível. Crescemos em Braga, casa pequena, pais daqueles tradicionais, e juro, nunca consegui sentir que havia paz. Cada sucesso meu, o gajo competia; cada vez que eu falhava, já estava de peito cheio. Talvez seja síndrome do meio, talvez só trauma geracional, mas sempre tive inveja da malta que se dava bué bem entre irmãos.
Depois deu-se que fui pra tropa. Pá, não queria, fui porque se alguém da família mais dissesse que "ser homem é passar pela tropa" eu soltava a tampa de vez. Curti? Nem por isso. Aquilo não é nada como nos filmes, sabem? Lá aquilo até batia de frente com a rivalidade — de repente éramos todos irmãos só porque usávamos o mesmo fato e comíamos o mesmo arroz seco todos os dias. Tipo, poderíamos morrer juntos e tal, drama patriótico. Mas, depois... cada um para seu lado, zero telefonemas após meses e mais meses no quartel. Tropa obrigatoria é mesmo só para meter disciplina na malta — e, honestamente, preferia ter tentado resolver meus traumas na terapia.
O problema é que a rivalidade do meu irmão seguiu para a idade adulta. Nós dois, trinta e pouco, e parece que estava a reviver sempre a mesma discussão caseira só que com contas para pagar. Por acaso muita gente pensa que rivalidade é giro, natural, que "faz crescer". A mim lixou bué, distanciou-nos. Hoje trocamos mensagens só de parabéns e quando algum primo morre — no resto do tempo parece que vive do outro lado do planeta. Nem sei se é mais orgulho ou cansaço, honestamente.
E a cabeça continua: comecei a pensar no propósito da vida, coisa bizarra para as tantas da manhã. Tipo, será que a vida era só mesmo para andar neste automático, competir, empilhar mágoas, prometer dietas? Quase sempre quando não se dorme direito as respostas vêm tortas e as perguntas saem erradas, mas tenho cá para mim que a gente só porta mesmo é para se desenrascar e, se for possível sem perder a cabeça, rir com alguém de vez em quando.
Falando em cabeça, tive uma experiência que me foi difícil largar e admito aqui: nunca superei o primeiro amor. Sim, já sou homem feito, mas aquela miúda do liceu... propriamente, nunca deixei de pensar. Mesmo porque fiquei a remoer tudo o que não disse, e agora já passou tanto tempo que não dá para dizer nada novo sem parecer meio maluquinho ressacado. Tive outros amores, vivi até uma relação tóxica que me virou do avesso, cheguei a sair como gente liberta e tornei-me mais cínico. Mas há memórias que ficam a moer como areia no sapato. É assim.
Nessa de relações tóxicas, nota mental: o que ninguém te diz é que quando finalmente sais achas que vai ser tipo filme — luz, liberdade, música de fundo. Só que depois há um silêncio meio brutal, digestão lenta da vida, porque já não sabes bem quem és. A liberdade custa. Mas se calhar começa-se aí a viver mesmo.
Agora, um apontamento rápido porque sim: maior medo ultimamente? Que as pessoas já não leiam livros. Não sou daqueles betos armados a literato, nem quero ser. Só tenho pavor real que daqui a uns anos ninguém saiba o que é apanhar um livro e perder-se sem notificações, sem pressa, sem stress. Ando sempre a dar livros à malta nos anos, mesmo sabendo que quase ninguém abre — serve só para eu não morrer a acreditar.
Conclusão das 4 da manhã: não faço ideia do sentido da vida, nem queria uma resposta fácil. Velha rivalidade de irmãos? Sei lá, cada qual com seu caminho. A tropa? Valha-me Santa que nunca mais. O primeiro amor — esse ficou e pronto, quem diz que não mente. Relações tóxicas? Sair é só o ponto de partida. E livros? Leiam, pá, só para não deixar morrer a coisa.
Amanhã acordo, arranjo a barba, digo bom dia a quem me cruzar, e finjo que tenho tudo resolvido. Mas cá dentro, nessas madrugadas, talvez seja só eu a ter coragem para admitir a bagunça. Quem por aí sofre destas insónias filosóficas também?
comentários (13)
Irmão que só manda mensagem em aniversário e enterro? Essa relação só existe na ficção mesmo, né?
Se a competição é até com o próprio espelho, já sei que só descanso em paz quando inventarem o sono de verdade.
essas madrugadas em branco são as piores, né? cabeça cheia de barulho e a vontade de silêncio que não vem nunca...
Parece que competir até com o próprio sangue só desgasta, né? Irmãos deviam ser aliados, não rivais eternos.
Entendo a raiva e o cansaço com essa convivência tóxica, mas será que ficar só na distância resolve algo mesmo?
Pá, competitivo até com o espelho? Isso não é rivalidade, é paranóia cinéfila demais. Acho que tá a romantizar a esquizofrenia dos laços familiares. Se não trocam uma ideia a sério, tá na hora de mudar isso, senão é só desgaste à toa.
Verdade, rir com alguém é o que salva mesmo!
man, essa história do irmão competitivo me bateu forte. eu tb sempre quis paz mas era só guerra fria em casa...
Pô, também nunca deixei de pensar naquele crush do liceu. Acho que é tipo um glitch no sistema... mas bora seguir tentando não pirar!
Pá, fiquei mesmo chocado com essa história da rivalidade eterna. Nunca pensei assim!