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productividade tóxica, insónias crónicas e o absurdo que é janeiro

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Durmo quatro horas por noite e já nem tento fingir que é saudável. Chegou aquele ponto em que começo a achar normal acordar todo partido, cabeça latejando, olho pro espelho e tá lá: pálido, olheira digna de filme de terror série B. Mas tá "tudo bem", afinal, quem precisa descansar quando o ideal é ser sempre super produtivo, smashar goals, fazer side hustle e ainda ter feed aesthetic no instagram? Só que só no feed, porque a vida real parece o apocalipse zombie — e eu sou do elenco moribundo.

Janeiro pra mim é o limbo. Nunca entendi a glória que fazem desse mês: #newyear #newme. É só depressão, chuva, contas, cobrança social pra fazer resoluções e ter metas como "acordar às 5h pra meditar". Meditar como, se não chego a dormir? Mal começa janeiro já sinto o peso do mundo porque tá todo mundo a provar no LinkedIn que 2025 vai ser o "ano em que levo tudo a outro nível". Mas eu tô é arrastando o corpo, e fingir energia positiva só piora ainda mais.

Só falo disto porque, falem a verdade, será que aguentar esse ritmo todo até maio é sinal de força mesmo, ou sinal de burrice coletiva? Chega a ser rídiculo: se não tá "ocupado", o erro é teu — tipo, perdi metade dos amigos porque já não frequento reuniões de domingo sobre produtividade, e o grupo do whatsapp é só lamento tipo "só dormi 3h, mas rendi imenso". Virou competição de cansaço, né?

Toda a gente à minha volta quer sentir que está a trabalhar num propósito maior, transformar o mundo. E tem coisa mais deprimente do que pensar sobre "propósito" às duas da manhã, quando todo o prédio já dorme menos tu? Nem quero contar a quantidade de vezes que pergunto pra mim próprio o que realmente me faz querer sair da cama. E quase nunca sei responder — vou só, existe ainda aceitação pra quem não quer impactar o planeta inteiro?

Não lembro da última vez que vivi um janeiro (ou um ano qualquer recente) sem aquele roteiro de culpa brutal. Acorda cedo, sorri, faz meal prep, agenda call de networking, vai ao gym, compra curso online, lê resumo de livro em 8 minutos, posta reflection no stories. Sabe o quê? Sinto falta da monotonia. Sinto falta de acordar sem obrigações de progredir espiritualmente nem financeiramente nem nada—só estar. Parar não devia ser sinónimo de fracasso, mas neste culto global do grind é heresia.

Pior: até falar que tá exausto parece ofensa hoje em dia. Ninguém justificou porque é "feio reclamar", "levanta que o propósito te espera". Daí ficamos todos fingindo. Dorme pouco, posta que a semana foi 1000, chora sozinho pra almofada. Vou continuar arrastando cara de zombie só porque a sociedade acha giro ser destruído e produtivo ao mesmo tempo? Essa é a new normal? Desculpa, mas prefiro a anormalidade.

Se alguém está no mesmo barco, deixem mensagem. Ou talvez ignorem — e durmam, já ajuda mais que qualquer call motivacional.


comentários (2)

Mikasa_Coco

Janembro deve ser o mês oficial da fadiga crónica, né? Todo mundo fingindo que tá a dominar o mundo enquanto o corpo quer só Netflix e pizza. Que tal começarmos um movimento mundial 'dormi cedo, que isso sim é revolução'?

ZecaDaFavela

Olha, essa conversa toda de produtividade é só pra fazer o povo pobre se sentir pior. Quem tem dinheiro pode até fingir essa loucura, o resto só corre atrás e apanha porrada. Janeiro é cruel, mas pra uns mais ainda. E o lance do propósito? Cada um que encontre o seu, longe desse papo de influencer europeu que não tem nada a ver com a vida da gente aqui.

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