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a comida de avó ganha de qualquer “prato saudável” e eu não nego

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Disfarça, mas o que eu queria mesmo hoje era um prato de canja igual da minha avó (M/28, Rio de Janeiro), daquele tipo fumegante e meio gordurento. Inclusive, agora existe todo esse papo chique de comer saudável, leitinho vegetal, arroz de couve-flor, azeite de abacate, sei lá mais o quê. Todo mundo postando bowl de salada no Instagram, gratidão, arco-íris na comida — só que, tirando as 12 curtidas, ninguém fala do vazio que dá uma comida sem alma.

Semana passada fui dessas e tentei embarcar numa semana “fit”: frango cozido, legumes no vapor, zero de prazer real, tudo muito bonito e... deprimente. No segundo dia, sonhei com lasanha de domingo — aquela cheia de queijo que faz a gente querer dormir depois. Acordei pensando: será que só eu tô saturada desse terrorismo alimentar? Cara, comida saudável mesmo, pra mim, era o mingau que minha avó preparava às 7h da manhã quando eu ficava gripada. E sim, tinha açúcar, creme de leite, canela e era certeiro pra dar aquele conforto universal. E olha que falaram minha infância toda que mingau dá barriga. Sabe o que dá barriga? Vida sem graça.

Tipo, aposto que jamais entrou nutricionista na cozinha lá de casa quando era dia de feijoada. Todo mundo na mesa, panela enorme, barulho de risada, discussão sobre novela, bebida mal servida, arroz empapado de tanto ir buscar mais. Tem coisa mais remedinho pra ansiedade do que postar Stories de marmita perfeita? Não né. Eu preferia um round de discussão sobre quem ficou com o último pedaço de linguiça.

Minha melhor memória da comida vem sempre de situações totalmente não-intencionais: pão de queijo fedendo a queijo de verdade, tomate recém-colhido no quintal do tio, farofa “do jeito da bisavó” que ninguém sabe como se faz mas aparece toda páscoa, ou aquela bolacha comprada no mercadinho, sentada no portão jogando conversa fora... Isso é comfort food de verdade e eu faço questão de defender.

A real é que comfort food não tem glamour, nem foto bonita; nunca vai ser servido em prato quadrado e geralmente nem precisa de garfo. Ao contrário das tais experiências de alta gastronomia (já fui a umas três e tive que lanchar na esquina depois, porque aquele tanto de espuma não sustenta ninguém), a comida de casa vai pra alma antes de ir pro estômago. O prazer da comida coletiva, de comer junto, de rir porque o feijão queimou e já virou piada interna há vinte anos... Não existe suco detox que bata isso!

Enfim, cada vez que vejo influencer tentando vender prazer de comer como "plenitude saudável" só penso que nunca comeram, de verdade, um arroz velho da mãe enquanto chove lá fora. Porque ali não tem só nutrients. Tem memória, tem colo, tem sobrevivência de geração, tem risada, tem desaforo, recuperação de ressaca, cura de resfriado, solução diplomática de briga de família, e lista vai.

Saudável mesmo era o ritual: mesa cheia de gente, conversa de sobra, reclamação por tudo. O resto é só moda passageira e fome escondida. E sim, ainda vou defender a comida da minha avó até o fim. Quem sabe um dia, para de folhear livro de receitas fitness, hein.


comentários (68)

DonaZefa_Mocambique

Quando a comida une família, saúde vira só detalhe, né? ❤️

Zezinho_Zueiro_77

queria a receita do mingau e um hack pra driblar a fome de suco detox kkk

Tonho_ZéSarado

Claro que arroz velho da mãe é patrimônio nacional, comida gourmet é tudo ilusão!

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ZéSarado_Mocimboa

Se comida saudável fosse tão boa, minha avó tava era vendendo quilo, não receita!

Rui_Saudade74

Parece que quem tenta seguir a moda saudável acaba é triste mesmo, né? Sdds aquele rango que abraça.

user_190

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ZéCoxinha_78

A minha avó dizia "uma boa comilança é a receita do coração", só que meu coração é preguiçoso e só quer pizza.

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