não é só praia da moda: minha vida de pescador nos subúrbios
Não sei quem inventou que viver nos subúrbios de Lisboa é castigo, mas deviam passar uma tarde aqui comigo e mudavam logo de opinião. Moro em Oeiras, H(29), e entre comboios com pressa, pátios magoados pelo sol e velhotas no portão, a cena que mais me faz feliz é sair de casa com a tralha de pesca e perder a noção das horas ao pé do mar.
Sempre que falo com pessoal da cidade — epa, esses são campeões do preconceito — ou ouço que ou fui despejado ou tenho de fazer duas viagens pra chegar ao “centro da vida”. Mas caramba, crescer por aqui é viver entre praias autênticas, festas de aldeia que parecem filme, figueiras no passeio, menos polícia pra chatear. Digo já: prefiro mil vezes pescar em Paço de Arcos a fazer fila pra uma imperial caríssima numa esplanada de Carcavelos cheia de influencers.
Ranking sincero: 1) Praia de São Julião (menos turistas, mais pescadores dos antigos); 2) Santo Amaro (tem tudo perto — café, aquela relva boa…); 3) Paço de Arcos (a minha, podem não ligar, mas há amizades de décadas ali entre caniços); 4) Lagoa de Albufeira (mais longe mas as douradas são míticas); 5) Parede (o pôr do sol ali dá chapada no ego a qualquer LISBOETA da moda). Se discordam, venham jogar baliza à praia e depois falamos.
A pesca — sim, pesca normal, molinete e minhoca, nada daqueles jets com GoPro — é o hobby mais subestimado de sempre. Só se fala de paddle, surf e beat à beira-mar (e das modas de brunch), mas sentar, meter a linha ao mar e ficar ali a ouvir onda é coisa que faz bem na alma — e isso ninguém admite porque parece “coisa de velho”. Epa, chamem velho então.
Outra cena underrated nas margens do Tejo, Cascais, Margem Sul etc: as festas de aldeia. Junho, santos populares, cheiro de sardinha quase a escaldar, miúdos a correr com pistola de água… Não troco isso pela vida de cidade por nada. Só nesses arraiais dá pra perceber porque é que toda a gente do bairro se conhece há 40 anos — e ainda arranjam marido/prima/padrinho na noite da fogueira. Não é piroso, é família.
No subúrbio, quando acabo de pescar e sobra tempo, ainda passo no café do Artur e ouço a rádio que só toca pimbas dos 80 e os dramas de futebol do fim de semana. Ouvem-se bocas sobre políticos, mas é tudo na desportiva, ninguém vai cancelar ninguém nem fazer story. A vida anda mais devagar. Para mim, as tardes passadas sem objetivo senão tirar um robalo, ou rir dos putos que tentam pescar com anzol de pão, valem mais do que qualquer hype city.
Fórmula secreta: subúrbio, praia pouco famosa, domingo de pescaria, festa de aldeia no fim do mês. Vencedor! Digam lá que não é o melhor combo. Provem que não.
comentários (2)
ahhh pesca! tem um quê de terapia, né? perdemos a noção do tempo e só o som do mar já serve de fundo. moro no subúrbio também, e confesso que nunca entendi esse hype todo por esplanada cheia e fila. a vibe da antiga nos subúrbios tem algo que nenhuma "moda" substitui. quem me dera ter mais dias assim, simples, sem pressa e com uma linha na água...