formação não paga as contas (e a minha experiência é a prova viva disso)
Isto era suposto ser aquele desabafo que fica nos drafts mas já não tenho filtros, então cá vai: H(27) de Setúbal, fiz tudo "certinho" que dizem… Licenciatura paga a ferros, mestrado a trabalhar em cafés à noite, aquela coisa do ensino superior que devia garantir um futuro decente. A promessa do diploma que abre portas e blá blá blá. Quase podia fazer copy-paste do panfleto da faculdade na esperança de enganar um puto qualquer do secundário.
Entrar no mercado foi logo aquela chapada de realidade: currículo lindo, notas decentes, e basicamente ninguém quer saber. A maioria das entrevistas parecia uma roleta — perguntas random tipo "qual animal serias numa equipa" (resposta: daria tudo para não estar aqui, mas ok, disse tamanduá só porque o entrevistador era fã de bicho estranho). Havia aquela clássica: “fala um defeito seu, mas que no fundo é uma qualidade”. Acho que arranquei os cabelos tentando não dizer ‘impaciente’ de nervos…
Fiz tanto estágio não remunerado que perdi a conta. Empresas que tratam estagiário como Google Assistant: "preciso de um relatório para ontem... e uns cafés também, se não te importares". O pessoal passa a vida a vender a ideia de que estágio é networking, só que real mesmo é microgerir as tarefas idiotas que ninguém quer enquanto te lembram que "aqui valorizamos o espírito de equipa" (mas não chega para pagar refeição de equipa… nem paio). Se ouvi mais uma vez "vai ser óptima experiência para o teu currículo", acho que podia gritar.
Depois teve a fase do “tens de ser proativo, ganhar experiência, voluntariados, aprender línguas”. Ok, fui a todos os workshops (arrastei-me a muitos só pelo coffee break), fiz voluntariado a dar formação que não serviu pra muita coisa, aprendi excel avançado, pôs no LinkedIn que sei treinar equipas e por aí fora… Sabem onde isso me levou? A contratos a prazo de 6 meses, salário que mal cobre renda num quarto partilhado, e zero garantia para daqui a um ano.
Aliás, tou no ponto de trabalhar dois empregos como freelancer nos fins-de-semana. Epa, o cansaço é tipo crónico já, viver para pagar contas básicas — energia, comida, TCP para o telemóvel (sim, porque sem net nem concorro a nada) — e rezar para não ficar doente porque nem sei como é que ia pagar um antibiótico decente.
Pior mesmo foram as respostas das entrevistas. Vou partilhar algumas das 'pérolas' porque a esta altura só mesmo a ironia salva:
- "Desculpa, procuramos alguém com experiência..." — depois da vaga de Júnior mencionar que contratam estagiários saídos da universidade
- "Valorizamos criatividade, mas seguimos processos fechados." Ok então.
- "Não temos orçamento para te remunerar, mas o chefe deixa-te ficar depois das horas para aprender ainda mais."
- "Se visses um colega a roubar material da empresa, qual sería a tua reacção?" (eu: tipo, por que raio esta fixação por material de escritório, malta? Acham que sou a Betty, a Feia?)
- "O que fazes para desanuviar do stress?" — sinceramente, choro no duche às vezes. Mas a resposta foi yoga e caminhadas, padrão LinkedIn.
Falar sobre diplomas que não servem para nada parece batido, mas quando é um ciclo de ter carta, pagar formação, estágio grátis, trabalhar duas vezes e ainda assim sentir que não estou a sair do lugar… aí pronto. Chega de ser "resiliente" como toda a gente gosta de gritar.
Às vezes penso: se tivesse ido aprender mecânica, pastelaria, qualquer coisa prático, estava hoje muito mais descansado ao fim do mês. Ver colegas do secundário, que nem seguiram faculdade, ganharem melhor em coisas como canalização, fica aquela dúvida existencial. A fábrica de diplomas está montada para nos vender o sonho, mas o sistema do trabalho caga pro nosso "sonho" e só olha para o barato e descartável.
Estou farto destas conversas de "mas vale a experiência", como se fosse pagar a fatura da EDP com um certificado digital.
Às vezes pergunto: quantos aí sentem o mesmo? Alguém desse lado já virou as costas ao ensino superior e não olha para trás? Conseguiram dar a volta? Eu estou quase a tentar outra rota. Só decidi meter isto cá porque — honestamente — é cansativo silenciar este lado da história.
comentários (43)
Nunca achei que estudar fosse virar esse perrengue sem fim, tô igual, vontade de largar tudo e só dormir... mas a gente tenta né?
quem nunca já respondeu que é um tamanduá numa entrevista que atire a primeira pedra kkkk
Seria bom se a experiência tivesse um fim menos cruel, né?
Caramba, esse teu relato mostra o esforço brutal que muita gente não vê. Fico impressionado como aguentas essa maratona dupla e ainda com cabeça pra refletir. Dá pra ver que não é só sorte, é batalha mesmo.
Olha, fiquei mesmo chateado ao ler. Essa exploração disfarçada de 'experiência' já devia ser crime. Já vi muita gente a ser sugada até ao limite, e o pior é que parecem achar normal esse desgaste todo. Alguém devia fazer algo de sério nisso, proteger quem só quer uma chance decente.
mano, esses estágios sem remuneração são tipo testes do diabo, né? e a treta do 'espírito de equipa' parece só umas palavras bonitas pra disfarçar exploração. e esses testes de entrevista? animal estranho pra não parecer chato? deixa eu rir... surreal! se continuar assim, vai ser mais fácil virar youtuber que conseguir emprego decente!
Querido, lamentavelmente o sistema escolhe quem aproveita, não a meritocracia.
vai ver que o tamanduá era o mascote secreto pra entrevistas bizarras kkk
Mó saco ver diploma que não vale um tostão no mercado real, né?