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cresci perdido entre culturas e ainda sou refém do primeiro amor (+ ranking praias)

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Sabem aquela sensação de não ser de lugar nenhum? Bem vindo ao meu mundo. Sou H(27), filho de mãe cabo-verdiana e pai madeirense, nascido e criado a saltar entre a margem sul e feriados eternos nas ilhas (quando o dinheiro dava). O mais ridículo destes anos todos é olhar à volta e perceber que nunca senti que pertencia MESMO a lado nenhum: em Lisboa sou o "das ilhas", em Santa Maria sou o "do continente", na escola era sempre "meio estrangeiro" de algum lado. Pior é quando abordam com aquele cliché: “que sorte, tens duas culturas!”… se isto é sorte, gostava de ter só uma para saber o que é sentir-me em casa.

Se tive pelo menos pilar familiar? Aquela ideia dos pais carinhosos, tipo filme americano, esqueçam. A última vez que ouvi “gosto de ti” foi… nt sei, acho que nunca ouvi? O máximo que escutei da minha mãe sobre mim: “és despachado, pelo menos não dás muita despesa.” Cresci a aprender que afecto era uma coisa silenciosa, percebe-se, mas não se diz. Fui levando. Fosse na escola ou quando comecei a sair sozinho por Lisboa, ficou sempre esse vazio de não saber como mostrar afeto a ninguém, mesmo em relacionamentos.

Falando nisso, sim, nunca superei o primeiro amor (fui daqueles parvos, admito). Foi numa semana de férias em Sintra, ela parecia saída de um videoclip de kizomba, dono de um sorriso que arrasava e umas conversas gigante sobre praia versus montanha, bitoque versus cachupa. Nunca mais a vi, mas até hoje ouço uma música e lembro dos nossos mergulhos na praia Grande, do caldo de cana partilhado ao fim da tarde (a sério, isto devia ser obrigatório nas praias de PT – é underrated demais, fight me).

Às vezes faço literalmente um tour só para reviver cenas dessa época, então bora ao ranking das melhores praias de Portugal segundo este pateta perdido entre culturas e sentimentos:

  1. Arrábida (sesimbra-style) – águas transparentes ridículas, escorpiões de praia a tentarem-te roubar a sandes, e pão com chouriço a arder os dedos. Insuperável.
  2. Praia do Guincho – melhor vento do mundo, ideal para chorar disfarçado depois de stalkear o Instagram do(a) ex.
  3. Praia Formosa, Madeira – sou tendencioso, sim, mas aquele pôr do sol com espetada na mão cura quase tudo (menos trauma familiar, mas quase).
  4. Praia da Costa da Caparica – onde aprendi a nadar (“a aprender”, na real, porque ainda vá aprendendo...) e onde a comunidade cabo-verdiana expatriada se sente rainha – a batucada aos domingos é tudo para mim.
  5. Praia da Rocha – só incluída porque, não sei como, toda a gente acaba por ir parar lá nas viagens de finalista. O caos personificado. Cheira sempre a cerveja, óleo bronzeador e ilusão.

Há outras, claro, mas para quem vive meio sempre no limbo (coletivo dos "de cá mas não daqui"), praias são tipo terapia barata. Seja para lembrar um amor platónico, lidar com a síndrome do impostor cultural ou só fugir de pais emocionalmente bloqueados.

E não me venham cá dizer que nem toda a gente tem esse problema. Acredito – mas para mim, mar vai ser sempre casa... mesmo sem nunca ser completamente minha.

Edit: só para reforçar – quem nunca chorou a pensar nisto tudo enquanto bebe um caldo de cana que atire a primeira pedra.


comentários (93)

ZéMaroto_99

Esse amor de Sintra é tipo final de novela das 8: intenso, bonito e termina na praia Grande com um caldo de cana. Agora só falta a banda sonora dramática e uns cortes comerciais. Já sinto o plot twist do "nunca mais a vi", típico!

InêsLisboa92

Confesso que essa sensação de andar meio perdido entre culturas é mais comum do que se pensa, mas a tal coisa de 'ter duas' não é só sorte, é também um quebra-cabeça constante.

ZecaZueiroLX

Qual é esse ranking de praia com scorpion roubando sandes? Já to vendo a Arrábida virar reality show: "Sobrevivendo aos escorpiões que querem teu lanche". Próximo nível de turismo radical, olhô!

NandoZuca_AO

Então queres dizer que cresceste com uma playlist de kizomba nos ouvidos e sem manual de instruções para pais carinhosos? Parece-me o script perfeito para um filme indie que ninguém pediu mas todos precisamos. Próxima temporada: a saga do pão com chouriço queimado e do stalk do ex na praia do Guincho. Quero já o trailer!

Jasmin_Sampaio

Espera aí, esse caldo de cana na praia Grande? Já fiquei curioso, onde é que se arranja isso? E essa história do ex no Guincho é demasiado verdadeira, já chafurdei no Insta a chorar vários verões 😂

Nando_PraiaLover_AO

Então o afeto na tua casa era tipo wifi lento: quase não funcionava e sempre com portas abertas só para passar o mínimo possível? 😂 Pelo menos nas praias ainda há consolo, e essa da batucada na Caparica soa a terapia oficial. Já experimentaste adotar uma sardinha no pão para combater o trauma?

TitaRisos_CV

Só tu para transformar uma saga familiar e um crush eterno numa tour de praia digna de influencer! Mas confessa: quantos bitoques já queimaste durante essa peregrinação gastronómica-praiana?

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Zeca_Desabafo

Então afinal, ser "de cá mas não daqui" é quase como ser a sandes de chouriço da Arrábida: impossível de definir, cheia de arestas (e escorpiões) e sempre com um dedo a arder. Quem dera que o porto seguro fosse mesmo o caldo de cana e não aquele combo trágico de família fria e ex de Sintra.

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LáF1ghter_MZ

Imagina crescer meio breakado entre dois mundos e ainda ficar preso no crush da praia. Bro, arranja um detox emocional e aproveita essas praias como terapia real!

Lopes_Cynicão

Sinceramente, essa história de nunca ouvir um "gosto de ti" me soa mais a desculpa para não enfrentar o desconforto dos afetos do que a verdade absoluta. Será que não há espaço para aprender a romper isso sem se vitimizar tanto?

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