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30 anos, ainda em casa dos pais e sinto-me encurralado entre dois mundos

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Nunca pensei estar a escrever isto aos 30 anos, mas cá estou eu, M(30), filha de guineense e cabo-verdiana, nascida em Lisboa e ainda a dormir no mesmo quarto onde meti posters dos Backstreet Boys — ironia total da vida adulta. Vivo na casa dos meus pais porque, literalmente, não tenho alternativa. É aquela história que toda a gente conhece, mas vive em silêncio: ordenado de classe-média-mas-na-verdade-pobre, rendas absurdas, custo de vida que ninguém avisou que ia explodir tanto, e aquela pressão invisível de ter de ser adulta em tudo menos nas condições.

Fico a carregar culpa de não ter conseguido dar aos meus pais o que eles deram a mim. Eles vieram para Portugal fugidos da guerra, troncharam tudo para criar algo melhor para mim, e agora sou eu que cuido deles: médico, papelada, crise de saúde, à noite faço-lhes sopa porque não têm energia. Ninguém do meu círculo entende como é ser cuidadora tão cedo, porque para os outros "os pais são imortais até não serem", mas aqui em casa sou eu quem trata de tudo. Faço mil malabarismos — trabalho remoto (ganho pouco), faço traduções às vezes, junto trocos para a conta da farmácia — e ao mesmo tempo tenho de ouvir conversa de primo que "os 30 são os novos 20", como se eu tivesse escolha para essas modernices.

Sinto-me estrangeira em todo o lado. Em casa, o crioulo voa à mesa, mas eu às vezes já nem saio palavras direito. Passo o dia rodeada de colegas brancos da tech, que fazem piadinhas sobre chamar os pais de vez em quando — pá, eles nunca vão entender o que é ter de um dia para o outro remar tudo sozinha, sem rede, sem plano B, porque aqui na Europa te mandam ser independente e livre, mas depois metem-te algemas com preços de T4 em Benfica a 1500 euros, e contratos a recibos verdes que não pagam as dores.

O que me revolta de verdade é ver a ideia da tal "classe média portuguesa", que é tudo menos classe-média: não andamos de Mercedes, não sobram férias nem há casas de praia, e ao mínimo imprevisto (um dente do meu pai partido, uma gripalhada braba da minha mãe), lá vai a meta do mês para o lixo. Há meses em que o saldo é negativo mesmo antes do dia 10. O mundo à volta faz parecer que ser adulto é ter escolha — mas para tanta gente da minha geração e do meu bairro, só existe alternativa de continuar onde estão, independentemente da vergonha social de "marmanjo" em casa dos pais.

A crise identitária bate com força. Não sou "portuguesa de gema", sei disso toda a vez que abro a boca fora daqui; também não sou da Guiné ou de Cabo Verde ativa, óbvio, porque nunca vivi lá. Sinto que falhei em deixar marca, mas quem é que deixa marca nesses buracos que parecem tão distantes — a não ser que ponhas foto no Instagram a dançar kizomba, parecem invisíveis. O peso das expectativas é tipo pistão em cima do peito: tinha de dar a volta, vencer, ajudar a família, ser exemplo para primos e primas que ficaram para trás, correr atrás de tudo com sorriso, e ainda ser "grata por tudo". Chega uma hora que só apetece gritar para o vazio porque ninguém percebe metade disto.

O mais surreal: sustentar pais em Portugal, num T3 de renda controlada (único privilégio), enquanto os políticos falam bonito na televisão de acabar com a pobreza geracional — e na prática, a cada ano, a gente afunda mais. Vejo colegas a irem para Berlim, Dublin, Londres, tipo millenials sonhadores, e eu aqui a dividir orçamento todo mês entre farmácia, supermercado, luz, e nesse mês que adoece um, acabou tudo. Dá raiva ver quão "invisíveis" somos: filho de africano, a cuidar dos pais enquanto faz freelancer porque full time é só se quiser assinar contrato de miséria por um call center qualquer. Dói fingir força para não preocupar ninguém quando parece que vou desabar no chão da sala, sozinha.

Quando as pessoas falam da "saudade de casa dos pais" eu só consigo pensar que nunca vivi essa distância, mas também nunca soube o que é adultar mesmo. Ter responsabilidade antecipada é sentir culpa até por respirar devagar. Ainda por cima, quem cuida de cuidador? Porque não se pode reclamar — há sempre alguém que lembra: "devias sentir-te sortuda por ter família". E eu sou, juro. Mas também estou exausta, perdida num limbo.

Não sei se um dia vou sair deste ciclo. Só queria saber se há mais alguém a viver nestas entrelinhas — a tentar ser tudo aos outros antes de ser qualquer coisa para si. Se calhar somos mais do que nos dizem.

p.s.: Se alguém souber como lidar com o peso de cuidar de pais doentes e, ao mesmo tempo, ter de construir uma vida inexistente, fala aí. Preciso mesmo.


comentários (67)

Marta_Duarte_Lisboa

Ninguém devia carregar esse peso sozinha, sério. Tu mereces apoio.

Zeca_SemFiltro

claro, pq todo adulto de 30 anos tem q ser milionário e sair da casa dos pais, né? realidades diferentes, calma lá

Tiago_Norte187

Ah, essa história de culpa por não dar tudo aos pais já tá manjada. Cada um na sua, né?

Dudu_Lx_91

É foda, né? Essa luta diária enquanto o mundo molda o "sucesso" de outro jeito. Quem aguenta isso?

Vera_LxRunner

Epa mano, dizem que a gente tá a perder tempo se ainda tá na casa dos pais aos 30, mas quem disse que essa é a medida do sucesso? Quem vive essa vida sabe a luta que é.

Gabi_20_Lx

30 anos e ainda chão na força? Mega relatable, mana. Vida custa mesmo.

Léa_CaboVerdinho

Ninguém devia passar por isso sozinha. A luta é de todos, bora apoiar mais uns aos outros!

Toni_MZ_Deadpan

Ah, claro, todos sabemos que a solução é só "levantar a ponta do tapete", né?

PadreNuno_Lisboa

Espero que encontre força naquela fé que ensina a carregar cruzes mesmo nos dias mais sombrios.

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XicoBairroSP

esse combo casa + cuidar + instabilidade é um loop impossível de sair né?

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