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cresci em cabo verde, escola, migração, e agora a minha prof tem onlyfans?!

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Sabem quando a vida parece que dá voltas só para te mostrar memes ao vivo? Eu nem sei por onde começar… Se pá pelo início, né: sou M(26), de São Vicente, Mindelo, mas vivo em Lisboa já vai pra dez anos. Quem veio da ilha também sente: cresceste com saudade por adiantado, porque TODO mundo das tuas referências vai embora cedo ou tarde. Vim para Portugal por causa dos estudos aos 15, tipo aquela ideia da família que “a Europa é futuro, menina!” (spoiler: futuro, mas a filas para tudo).

Primeiro impacto foi brutal, ngl. Chegava do Mindelo, zero frio, com aquelas saudades dos aluguers cravados de gente, cheiro a mar misturado com peixe grelhado, e de repente… transportes com horários mágicos que mudam quando querem, matinais frios que até dão inveja à serra, e professores sem paciência nenhuma pra sotaque que não bate. Mas fui levando. Escola secundária sempre aquela tensão do “não sejas a diferente”, até o dia em que dei a volta e comecei a usar o crioulo só pra sticar nos intervalos. Era gozo, mas virou símbolo. O pessoal até pedia pra eu ensinar uns palavrões, típico Tuga rs.

No liceu tive uma prof de História que não me esqueço. Aquela personagem: sempre séria (mas com olhos a sorrir se reparasses), Mindelense também – mas daqueles que estudaram fora e depois voltaram já adultos. Era fixe com as histórias de colonização, falava bué das cenas sobre as ex-colónias, dizia que ninguém ensina direito (e é verdade, aliás). Ela era tipo ponte entre duas culturas: corrigia textos em português de Portugal mas deixava passar crioulo nas expressões. Ultimamente… arrisco a dizer que foi ela quem me fez manter alguma sanidade neste choque todo de estar entre dois sítios e não pertencer a nenhum.

Sdds dessa época, mas também do cheiro da comida da minha avó — muamba de galinha, minha gente…! Tem coisa melhor? Povo europeu acha fancy galinhazinha com vinho ou bacalhau, quando eu cá só peço, por tudo, arroz branco e um molhanga decente de muamba. (E não me venham com moqueca, paella, Cassoulet – tudo respeitinho, mas sorry, os sabores africanos são outra dimensão!). Sempre que volto Mindelo, sou abençoada pelas tias na cozinha e penso: turismo fez o favor de dar fama à ilha, mas matou metade dos barracas boas. Agora é espreguiçadeira e cerveja cara à beira da praia, nada daquele atum no pão com molho a pingar no braço, morabeza mesmo. Até os turistas acham “exótico” pagar mais por menos sabor. Tradição vira atração enquanto o nativo vai vivendo…

A parte mais surreal nem é essa: alguém do meu liceu criou um grupo de WhatsApp pra "exilados de Mindelo" e esta semana partilham lá prints do Twitter e… fiquei mesmo em pulgas: a minha professora de História — ela mesma — agora tem OnlyFans. Mano. Tipo, sim, é verdade. Perguntei a ex-colegas e até confirmaram, sussurros e risinhos. Meio teorias, porque ninguém tem coragem de ASSUMIR que pagou pra ver. A pessoalidade da ilha fica bué escancarada online – todo mundo comenta baixinho, na rua fingem normalidade. Gosto mesmo dela, sempre foi querida comigo. Não julgo mesmo. Fico só abismada com a rapidez que a vida mudou: aquela pessoa que me deu nas orelhas quando escrevi mal um nome de data – agora a construir outro tipo de independência. Mal ou bem, coragem não lhe falta.

E é estranho, porque penso: toda essa tour pela Europa, o tropeço das raízes e o pino da identidade. A comida tradicional virou "street food premium" pra turista ver, professores precisam de side hustle digital pra pagar renda, jovem só é respeitada se virar meme na net ou influencer. E eu, longe das raízes, tentando ser "global", tropeçando na burocracia PT, sempre a explicar se falava português em casa, se Cabo Verde era "mesmo país de verdade". Agora, entre Lisboa e Mindelo, nada é igual mas tudo rima.

É bué complexo olhar pros Tugas e sentir que muitos nunca leram NADA sobre ex-colónias (só abrem o google pra ver onde fica Cabo Verde quando ouvirem uma música do Dino d’Santiago ou verem uma story na Ericeira). Quando volto à ilha, juro que já não sei do que tenho mais saudade: da morabeza de Mindelo antigamente, da muamba à mesa ou do tempo em que os professores eram só professores, sem hashtags trending.

Se alguém mais aí teve esses choques de migração, de tradição a virar espetáculo, de escola a virar trending news… força aí! Prometo que todo o mundo se sente fora do lugar às vezes. Mas na moral: Muamba de galinha > qualquer prato europeu, ponto final, e não aceito debate.


comentários (13)

user_9417

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ToniDoRiso

Ah, o mundo dá umas curvas inesperadas, hein?

user_7512

Meme
user_1681

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Toni_Baía

Mds, sério que é só eu que acha estranho uma prof com OnlyFans? Não tô julgando, mas é difícil não pensar no que isso mexe com o respeito em sala...

Luna_Salmao

pqp, a vida é mesmo uma novela a cada esquina...

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Dona_Silva27

Isso sim é vida real! A mulher fez o quê? Professora com um OnlyFans? Confesso que admiro demais a coragem de misturar a educação e o entretenimento assim. Diversidade nas carreiras é tudo!

Sérgio_CaboVerdiano

Ah pronto, a prof agora é influencer? Quem diria que história virava entretenimento assim tão literal...

Nelson_Mindelo

Gente, ela pode ter as escolhas dela, ninguém tem q julgar só pq é prof!