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bato ponto entre postos médicos e empregos — sobreviver não é viver

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Já perdi a conta às vezes que ouvi “mas tens mesmo dores ou é só cansaço?”. Viver com dor crónica é tipo um emprego à parte, só que sem férias, sem folga, e ninguém te paga por isso. Pior: não aparece em exame nenhum, então metade das pessoas à minha volta acha que estou só a inventar, a fazer fita, como se alguém fosse fingir estar preso a uma almofada térmica em pleno agosto só para "ganhar atenção".

Tenho 38, H, de Matosinhos e acabei de chegar ao segundo trabalho do dia. Um deles (call center), o outro a repor prateleiras até quase meia-noite. E faço isto para tentar cobrir as contas. O salário do primeiro mal chega para a renda, e sobra o "resto" — que, spoiler: é quase nada — para compras, fatura da luz que parece gozar comigo, pensos para as costas, e comida barata/ultra-processada.

O que ninguém fala é que esta rotina destrói. O corpo não aguenta ficar sentado 8h de headset colado ao ouvido, levantar caixas pesadas de seguida e depois ouvir "olha, o Rui está sempre com cara de poucos amigos". Não é falta de simpatia, é que juro, a partir das 15h já estou a bater soma de analgésicos.

E só para piorar: sempre que procuro ajuda, pronto, a alternativa que me dão é — toma medicação. Já me passaram mais receitas nos últimos anos do que qualquer velhota do bairro. Literalmente qualquer tentativa de resolver é passada por comprimidos: estás triste? Tens dor aqui? Não dormes? Toma comprimido — nunca é: vamos descobrir o que há de errado ou pelo menos falar sobre como podes melhorar tua rotina.

A pressão então, para não deixar cair a casa... pá, às vezes deito-me a pensar que me tornei mesmo aquele clichê de adulto que passa a vida em consultas, filas de espera eternas e farmácias. Tudo para continuar a trazer algum para casa, na esperança que a família não perceba que na verdade só estou a sobreviver, não a viver.

Não me lembro da última vez que comprei algo só porque quis. Ou que acabei o mês com aquela sensação de "consegui". Longe disso. No máximo, consigo mais umas caixas de ibuprofeno quando fazem desconto.

Pergunto-me se somos só nós aqui deste lado que sentimos isto: a doença invisível, a luta dupla de salários que não chegam, o empurrar para baixo de goela medicamentos porque é mais rápido do que escutar ou resolver. Sinceramente, sinto-me a deslizar devagar para um atoleiro de dor, rotina, comprimidos e dívidas cada mês maior.

Alguém daqui também sente que esta história não é exceção, mas a regra?


comentários (45)

tugas_no_mundo

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Zé_Carvalho59

Meu, isso doendo todo dia e ainda ter que fazer dois trampos? Parece cena de filme, mas é real demais. E essa história de 'toma remédio' é tão batida que cansa. A gente precisa é de mais conversa e menos comprimido que não resolve nada, só mascara o problema mesmo.

pretinha_moz

Puta que pariu, cara, essa batalha diária é de outro nível mesmo! Te admiro por segurar firme.

MarcioRJ_92

nem lembro a última vez q dormi sem pensar em contas e dores, acho q tô no mesmo barco q tu, só q nem almofada aqui pra esquentar esses ossos cansados hahah

ChicoLx

mano, viver num tetris de dores e jobs é o novo normal? parecia cena de filme post-apocalíptico mas ñ pq é a vida real... queria pelo menos um 'game over' pra recarregar as energias

MaluquiceNaVeia87

Tipo, quem é que inventou essa expressão "sobreviver não é viver"? Queria ver se ele aguentava dois turnos desses sem desmoronar já.

ErnestoP_cabo

O problema não é só a dor, é a falência do sistema que normaliza esse sacrifício absurdo. Precisamos de soluções reais, não só comprimidos.

César_Santiago

Caramba, Rui, essa invisibilidade da tua dor é um ladrão da tua dignidade. É como se estivesses a lutar numa guerra que ninguém vê nem entende. O mais triste é que o sistema parece empurrar-nos para um ciclo vicioso sem saída real. Ninguém devia passar por isso sozinho, ninguém merece esse desgaste extremo.

marta_lx

Mano, esse ciclo é tão cruel que parece não ter fim, né?

PandaSabia23

😞💊💸😭

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