Sou uma sombra na minha própria vida
Sou uma sombra na minha própria vida
Eu não consigo lembrar quando foi a última vez que olhei no espelho e realmente vi a pessoa que eu deveria ser. A imagem que reflete é mais como um fantasma do que como eu mesma. Nos últimos anos, tudo parece ter se misturado em um borrão de dias cinzentos, onde eu me sinto cada vez mais distante de quem sou.
Olhando para o passado, percebo que a vida foi me moldando para caber em espaços que não eram meus. Desde cedo, a pressão para se encaixar, ser aceito e amado era tão forte que eu aprendi a usar máscaras para ocultar meu verdadeiro eu. Sorria e dizia que estava tudo bem, mesmo quando me sentia despedaçada por dentro.
Fingir estar bem era a única forma de sobrevivência que eu conhecia. A ideia de ser vulnerável e expor minhas fragilidades enquanto eu caminhava pela vida já não fazia parte do meu vocabulário. Esse estado de apatia se tornou minha nova normalidade. Acordar todos os dias, olhar pela janela e não sentir nada é uma experiência alienante. Cansada de existir, mas ainda assim incapaz de abrir mão do que é familiar.
Enquanto isso, a solidão se tornava minha fiel companheira. Rodeada de pessoas, eu me sentia invisível, como se estivesse assistindo a vida alheia passar sem efetivamente pertencer a ela. E o peso dessa percepção se acumulava, como se eu estivesse carregando uma mochila cheia de pedras.
A verdade é que, no fundo, eu tinha vergonha de admitir que me sentia assim. A vergonha de ser uma fraude na própria vida, de viver para agradar aos outros enquanto me afastava mais e mais de mim mesma. Parecia que eu estava encenando uma peça, mas não me lembrava das falas; apenas repetia as ações como uma boneca. Uma parte de mim sabia que estava presa nessa encenação, e lentamente a raiva e a frustração cresceram dentro de mim.
Com o tempo, as mentiras foram se acumulando. Mentiras sobre quem eu era, sobre o que eu queria e até sobre o que sentia. Os segredos tornaram-se tão pesados que eu mal conseguia respirar. Eu guardava tudo para mim mesma, criando uma carapaça que não me deixava escapar, mas também não me permitia ser livre.
E mesmo assim, havia um desejo ardente por conexão, por pertencimento. Eu desejava desesperadamente encontrar alguém que visse além da superfície, alguém que pudesse tirar a máscara e me ver, verdadeira, nua e sem defesas. Mas o medo de ser rejeitada novamente me paralisou. A ironia é que era exatamente essa busca por amor e aceitação que me fazia sentir ainda mais sozinha.
A cada dia, vivia com a sensação de que, se não tomasse uma atitude, acabaria sendo engolida por essa sombra da qual me tornei. Enquanto a vida ao meu redor avançava, eu estava paralisada, incapaz de dar um passo. Comecei a me perguntar se um dia seria livre dessa dor, se um dia eu conseguiria abrir mão dessas máscaras.
Na verdade, a jornada da autoaceitação é difícil e cheia de altos e baixos. Às vezes, eu me pego pensando na possibilidade de me reinventar, de me permitir ser vulnerável, mas o medo sempre retorna, me puxando de volta para a escuridão.
Essa é a minha confissão. Sou uma sombra na minha própria vida, e mal consigo lembrar quem eu sou, mas, ao escrevê-la, uma pequena luz brilha dentro de mim. Uma luz que me faz acreditar que talvez, um dia, eu possa ser inteira novamente, sem o peso das expectativas alheias, mas repleta do amor verdadeiro que, por muito tempo, procurei fora de mim.