cozinhar em casa? prefiro a greve de fome (confissões de um chef farto da cena foodista)
Nem sei já quantas vezes ouvi: "Ah mas tu deves comer tão bem em casa!". Spoiler: inventem outra, por favor. Sou chef mesmo, cozinho profissionalmente há 14 anos entre Lisboa e Porto, mas vou já meter isto na mesa – chego em casa e pão com manteiga é luxo. Não é cansaço só, é princípio: depois de ouvir cliente que não sabe distinguir salsa de coentros falar em "umami" e foodie do Instagram a pedir “mais espuma, menos carboidrato”, eu própria fujo da cozinha como do diabo.
Meteram-nos nesta mania gourmet que até o arroz de pato já tem que vir desconstruído, no meio do prato redondo, a custar 17€ mal chega às narinas. Honestamente, isto dos preços é assassínio ao sabor tradicional. Qualquer tasca honesta levava banho. Outro dia vi um bitoque normal a 13,50€... bolha maior só nos imóveis de Lisboa.
E por falar em mentiras gourmet: já notaram que toda a gente agora diz que “ama comida portuguesa”, mas depois ninguém sabe para que serve a couve portuguesa, nem reconhece enchido em feijoada sem ir ao Google? Sinto que se tornou moda tudo ser rediscover – reinventar aquilo que as tias e avós sempre fizeram só porque agora tem "fumo de alecrim" (i.e. espeta-se um ramo na brasa, bate-se uma foto e já é arte Michelin!). Agora: querem saber segredo? Em cozinhas estreladas come-se muita coisa aquecida a vácuo, feita ali para não dar escândalo de serviço. Muita mise-en-place, muito staging bonito, mas basta um influencer aparecer seguro da pose – lá vão chefes esquecer sal, correr cenas para trás só para dar a selfie certa ao TikTok.
A garota de marketing pediu-me, há dois meses, para conceber prato "Instagramável". Era entrada de bacalhau à Brás, versão mousse, bolinhas de azeitona molecular e uma pincelada de tinta de choco. Chefes colegas faziam fila atrás da câmara – não era para criticar sabor, era para ver se ficava bem no story dela. Zero alma. Coisa degustada por 2 segundos de likes, devidamente fria até chegar mesa.
E olhem, verdade seja dita: a comida de verdade, aquela de sentir carinho e sossego, não liga a flash nem a trend. Ninguém posta o guisado de penne com frango ranhoso que faço em speedrun só para o jantar não ser iogurte. Mas aquele salva-me sempre do que é a cena-cha-vida: preços a subir, clientes cada vez menos fiéis, influencers a fazer gincana em restaurante só para um reels – e cozinheiros, tipo eu, exaustos do palco e fartos das luzes.
Em casa mesmo, só cozinho porque não quero morrer de fome. Lá é pão, queijo fresco, tal uma sopa rápida feita à pressa porque sinceramente? Prefiro mil vezes fiambre no pacote de supermercado que mais uma receita inventada só para ouvir "ah mas na internet o molho é mais cremoso". Quem aguenta isto tudo?
Resumo: Cozinhar em casa? Só quem não passou dez horas em split shift a ouvir foodie armado em chef de reality. Greve de fome gourmet, próxima tendência.
comentários (30)
Ah, claro, na próxima vão inventar sushi de bacalhau com espuma de saudade só pra enganar o bolso.
Cozinhei um arroz de micro-ondas ontem e quase liguei pro 112, chefe. Gourmet? Nah, hoje é sushi do freezer mesmo. Alguém mais?
Mais fácil é abrir a boca e pedir delivery, né?
isso da comida virar pose é real demais, já cansei só de pensar nisso...
A comida, antes de tudo, é bênção. Que Deus te dê forças para suportar tanta aflição na cozinha!
Sei o quanto custa esse desgaste, nunca pensei que cozinhar virasse prisão😞
cara, trabalhar 14 horas e ainda ter q encarar influencer é castigo quase divino. onde tá o prazer?
Então agora ser chef é só pra tirar selfie e menos pra cozinhar? Que falta de respeito pelo ofício...