fugir do scroll: as manhãs de pesca, a vida nos subúrbios e um goloso pastel em Maputo
Lembro-me de quando achava que precisava estar sempre online pra não "perder nada", aquela ansiedade do scroll infinito. Fui daqueles que acordava já pegando no telemóvel – WhatsApp, Instagram, Twitter, TikTok, tudo à mistura. Não via o tempo passar e, honestamente, não via muita coisa de jeito também. Mas há cerca de um ano, dei-me conta: perdi tantas pequenas coisas da vida real porque estava ensimesmado nos feeds dos outros. H(32) moçambicano, suburbano.
Nunca pensei que ia ser a pesca que me salvava dessa espiral. Sempre gozei com o tio Mateus – "tu a encher minhoca do anzol enquanto o mundo passa!", dizia eu na altura – até um sábado chato, cinzento, sem planos, depois de um burnout do online, aceitei o convite voado dele pra conhecer o Cantinho do Chiveve, um lugar semiclandestino, puro bairro, onde meia Maputo vai pro ar livre e ninguém te cobra por pedir paz. Pus o telemóvel em modo voo como desafio de mim para mim: o máximo que havia eram uns velhotes de rádio ao fundo a ouvir futebol das antigas e batuques vindos das casas tortas do subúrbio.
Sinto que nos subúrbios, a malta olha diferente para o tempo. Não é esse stress de buzina, fila atrás de fila, aquela pressa que Maputo tem no centro ou na baixa. Aqui se espera, com paciência, até um peixe morder. Fui ficando ali, a ver as argolas da linha baterem na água, a ouvir as conversas meio soltas dos outros pescadores. Dois miúdos ao lado estavam mais contentes com as formigas a tentar roubar açúcar do saco do pão do que propriamente com peixe. Havia gente de todas as idades e nenhum deles sequer pensava em Scroll, Like, Share. O hobby podia parecer "coisa de velho" pra quem não conhece, mas ali entendi: pesca é um mundo calmo, de foco, de saber estar consigo mesmo – talvez o hobby menos valorizado, mas dos mais terapêuticos que provei.
A meio do dia, já sem noção de horas porque ninguém ali carrega relógio, bate aquela fome boa. Nisto aparece a D. Severina a empurrar o seu carrinho de pastéis de peixe e chambuço, dos melhores snacks da zona sul. "Compro sempre aqui porque na cidade é tudo caro e não sabe a nada!", atirou um senhor gordo de boina. Tenho que admitir: aquela comida de rua da periferia destroça qualquer restaurante gourmet do centro. Sabor forte, barato, servido num guardanapo de jornal e sem frescuras. O chamuço dela, com aquele toque de gengibre e malagueta, era suficiente pra acordar até o mais desligado do mundo digital. E entre uma dentada e um peixe teimoso na vara, pensei: ninguém fala disto, mas é nestes escaparates de esquina que está a alma de Maputo.
Nesse dia voltei pra casa sem muita coisa no balde (mentira, pesquei zero peixes, mas fica entre nós), mas totalmente descarregado – não de bateria, mas das chatices e ruído.
Foi depois dessa manhã que criei uma regra: pelo menos um sábado por mês, zero redes, só subúrbio, peixe que nunca vem, miúdos com pão doce de cinco meticais e comida de rua dessas que mesmo quem tem pouco dinheiro compra sem pensar duas vezes.
Parei de dar a minha atenção de graça ao algoritmo e comecei a dar ao meu tempo – e paladar – coisas simples, mas que me fazem sentir mais gente. Não voltei ao vício das redes. Sempre que sinto, agarro na cana, caminho até ao Chiveve, e penso como é subestimada toda esta paz à beira de Maputo.
comentários (65)
🐟🚫📱🛶 pão de 5 meticais > wifi. Isso sim é viva a simplicidade e os sabores que contam histórias!
Andar sem pressa, ouvindo o silêncio e o som da espera... difícil hábito em tempos de scroll infinito, né? Talvez o verdadeiro ‘conectar’ esqueceu-se pelo caminho.
Mano, essa cena do 'pescar esperando um peixe que nunca vem' mas saíres com a alma recarregada tá forte! Precisamos mesmo é desses paus no escuro pra desligar, experimentar o tempo sem aquele scroll viciado. É tipo terapia sem consultation, saca?
se pescar zero peixes mas fisgar um pastel desses, já valeu a tarde toda kkkkkk
Nunca pensei que a pesca fosse tão zen, curti demais essa vibe!
Eita, que vibe top essa de largar as redes e fisgar paz de verdade com a pescaria! Aqui no cabo também tem uns cantinhos assim... Mas confessa, zero peixes? Tá a mentir, hein! 😂
Se é pra pescar zero peixe, podia ir só comer os pastéis, né?
Pescar sem peixe é perda de tempo, isso não é terapia é tédio!