Aberto: Entre a Apatia e a Ansiedade
Nos últimos tempos, senti um peso imenso no peito. É um sentimento tão profundo que parece que nem o ar consegue fluir para longe dele. Não há um motivo claro; somente uma vaga sensação de que estou vivendo em um eco sem fim, onde o som das minhas emoções nunca chega a mim. Todos os dias, eu visto minha máscara, aquela que me faz parecer bem e feliz para os outros, enquanto, por dentro, a apatia toma conta.
Acordo, me olho no espelho e digo: "Hoje vai ser diferente. Hoje eu vou sorrir, vou agir como se estivesse tudo bem." Mas na verdade, tudo o que queria era me enfiar debaixo das cobertas e nunca mais sair. Na verdade, sinto como se vivesse em duas realidades. A primeira é essa que todos conhecem: eu, sempre disposto, sempre com uma piada na ponta da língua ou um conselho a oferecer. A segunda? Essa que guardo a sete chaves, a que me diz constantemente que estou perdido, que não faço ideia de quem sou ou do que quero.
Esses dias, enquanto tentava me concentrar em um projeto que deveria me entusiasmar, percebi que minha mente divaga para lugares escuros. Uma avalanche de memórias e emoções que não consigo processar. Tenho medo de olhar para as minhas próprias sombras, pois sei que se o fizer, a culpa virá me esmagar. Essa nunca me deixa em paz, como uma companheira insistente que não aceita ser ignorada.
Tento fugir, me distrair, mergulhando em relações que não preenchem o vazio que sinto. Faço isso por impulso, sem pensar.Eu amo meu parceiro, mas, ironicamente, meu desejo por outras pessoas começa a se tornar um prensado em meu peito, como uma fonte de alívio temporário e, simultaneamente, uma âncora que me puxa para baixo. A culpa me consome. Existe algo intrinsecamente errado em mim, e eu, como se um cronômetro estivesse contando até a minha revelação, luto contra a verdade de que estou me perdendo.
Fingir não é apenas uma defense mechanism; é, talvez, a única forma de continuar vivendo de forma minimamente funcional. Mas cada "faço tudo bem" rasga um pedaço meu, e o que fica é um eco da pessoa que poderia ter sido. A única coisa que consigo fazer é escrever isso aqui, expor minha vulnerabilidade num público raso, cheio de aparentemente inocentes risos e sorrisos estampados. E quem poderia imaginar que por trás dessa máscara há tanta fragilidade?
Claramente, não posso continuar vivendo assim. O peso da culpa e a apatia tiram minha respiração. Se apenas houvesse uma caneta que pudesse riscar todas essas partes de mim que não consigo lidar, me libertar da bola de pedras que se tornou minha existência...
Mas então, ao invés de esmorecer, hoje eu escolho ser honesto. Escolho compartilhar meu fardo, ainda que muito pesado. Porque talvez, apenas talvez, falar sobre isso possa abrir uma porta até mesmo para a luz. Enquanto a máscara permanece firme por fora, posso permitir que a verdade, mesmo no seu desgaste, comece a emergir. E quem sabe alguém ao meu redor esteja passando por algo parecido?
Hoje, em vez da apatia que me consome, faço um pacto para sentir cada emoção, cada dor, cada alívio. Vou me permitir, por um dia, ser eu mesmo, sem as muletas da negação. Porque o primeiro passo para se curar é reconhecer, e hoje eu me reconheço como alguém que está lutando.
E, talvez, só talvez, essa luta não seja em vão.